(FreePik) A inteligência artificial (IA) e a digitalização avançada estão prestes a provocar uma disrupção sem precedentes na infraestrutura brasileira. Nos próximos cinco anos, o País enfrentará uma encruzilhada: ou adota uma transformação estrutural profunda ou corre o risco de ampliar ainda mais os gargalos históricos que limitam sua competitividade. O mercado brasileiro de tecnologia da informação projeta um crescimento de 13% em 2025, impulsionado por investimentos em IA, conectividade e sistemas inteligentes de gestão. Essa expansão reflete a urgência de modernização em setores essenciais como transporte, saneamento, energia e logística portuária. No setor portuário, os ganhos potenciais são evidentes. Modelos de IA aplicados à gestão preditiva podem otimizar a movimentação de cargas, reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência de terminais. No entanto, ainda há um descompasso entre o avanço das tecnologias digitais e a velocidade de execução dos projetos de infraestrutura física. Na semana passada, durante um evento voltado à inovação em infraestrutura, fui questionado sobre esse tema. Defendi que o Brasil vivenciará, sim, uma transformação tecnológica importante até o final desta década. No entanto, alguns participantes, com longa trajetória no setor, apresentaram um contraponto. Segundo eles, grandes projetos no Brasil levam, em média, uma década para se concretizar, e as estruturas institucionais não favorecem mudanças rápidas. Esses argumentos, embora realistas, não devem ser interpretados como uma sentença de imobilismo. Há, sim, vontade política e interesse público na adoção de novas tecnologias - o que se vê em diversas iniciativas de governos e agências reguladoras voltadas à digitalização, à inovação e à busca por eficiência. O que falta, muitas vezes, é o alinhamento entre planos e ações, a superação de entraves burocráticos e a continuidade administrativa entre gestões. Exemplos concretos ajudam a ilustrar esse dilema. Projetos estratégicos como o Tecon Santos 10, no Porto de Santos, e a terceira pista da Rodovia dos Imigrantes seguem em compasso lento, apesar de sua importância logística inquestionável para o porto e para o escoamento da produção nacional. A implantação dessas obras é fundamental para que o Porto de Santos - nosso principal elo com o comércio exterior - esteja à altura dos desafios da próxima década. Ao mesmo tempo, a transformação digital começa a ganhar espaço. Plataformas inteligentes, automação portuária, rastreamento de cargas em tempo real e o uso de IA em planejamento logístico já estão sendo testados e aplicados, ainda que de forma fragmentada. A tendência é que essas tecnologias avancem, especialmente se vierem acompanhadas de marcos regulatórios mais claros e de investimentos sustentados em capacitação e infraestrutura de apoio, como energia e conectividade. A próxima meia década será decisiva. Com articulação entre setor público e iniciativa privada, é possível acelerar essa transformação. O cenário internacional nos mostra que tecnologia é um caminho sem volta - e o Brasil tem condições de trilhá-lo, desde que haja coerência entre a visão estratégica e a execução prática. A transição tecnológica já começou. O desafio agora é garantir que ela alcance, de fato, a espinha dorsal da infraestrutura nacional - com planejamento, financiamento adequado e um pacto institucional que valorize a inovação como alicerce do desenvolvimento.