(FreePik) Hoje eu completo 60 anos de idade. E não venho aqui para celebrar com pompa ou nostalgia. Escrevo com a alma de quem carregou caixas, liderou equipes, enfrentou crises, atravessou fusos horários e construiu pontes – entre pessoas, empresas, portos e países. Escrevo como quem viu a globalização nascer otimista, crescer voraz e agora buscar, talvez pela primeira vez, um sentido mais profundo. Comecei minha trajetória numa época em que o mundo era maior. Tudo demorava. A comunicação, as decisões, os processos. Cada negociação era marcada por esperas, cartas, promessas. Hoje, vivemos numa era em que o mundo cabe em um contêiner. Paradoxalmente, esse contêiner carrega o peso das maiores transformações do nosso tempo. A globalização que nos trouxe crescimento e eficiência agora é desafiada por novas forças: protecionismos disfarçados, tensões geopolíticas explícitas, cadeias logísticas redesenhadas à luz da resiliência e da proximidade. Nos próximos cinco anos, não veremos o fim da globalização – veremos o nascimento de uma nova lógica: mais seletiva, mais estratégica, mais interdependente. O comércio exterior brasileiro, nesse cenário, tem uma escolha histórica. Pode seguir reativo, burocrático e periférico… ou se reinventar como protagonista de uma nova ordem comercial baseada em confiança, previsibilidade e inteligência logística. Mas para isso, é necessário mais do que infraestrutura. É preciso visão, coragem e gente boa. E é nesse ponto que a experiência se transforma em missão. A maturidade me ensinou que o maior ativo de qualquer organização não é seu terminal, seu armazém ou sua frota — é a qualidade das pessoas que fazem tudo isso funcionar. É o talento silencioso dos operadores, a persistência dos planejadores, a visão dos líderes. Completar 60 anos, para mim, é chegar a um porto seguro interior. É reconhecer que os grandes contêineres da vida não são os que transportam carga — são os que carregam histórias. E que o verdadeiro valor de uma jornada está em inspirar outras. E se cheguei até aqui com energia e amor pelo que faço, devo isso a quem nunca soltou minha mão nos momentos de tempestade: minha esposa, minha parceira de vida desde os tempos de faculdade. Foi com ela que aprendi o que é construir, ceder, recomeçar. E foram meus filhos, com suas vidas, conquistas e até silêncios, que me ensinaram a seguir em frente com resiliência mesmo nos dias mais difíceis. Eles são meu norte silencioso, minha razão de força e permanência. Aos jovens que hoje começam suas trajetórias, digo: não se deixem enganar pelo excesso de tecnologia. O futuro será digital, sim, mas será moldado por valores profundamente humanos. A inteligência artificial pode prever tendências, mas só a inteligência emocional constrói pontes duradouras. Aos líderes e empresas, um alerta: a próxima década será impiedosa com os que não se moverem. A logística será cada vez mais o coração do comércio. Mas não bastará mover cargas. Será preciso mover ideias. Decisões. Consciências. E, acima de tudo, mover pessoas com propósito. A globalização, essa senhora inquieta que acompanhou minha vida inteira, não acabou. Apenas trocou de roupa. Agora veste regionalismo, redesenho estratégico, responsabilidade ambiental e precisão digital. E exige de nós uma nova postura: menos discurso, mais entrega. Menos ego, mais colaboração. Hoje, com 60 anos bem vividos, sigo motivado como se tivesse 30. Porque aprendi que a idade é só um número. O que realmente conta é continuar aprendendo, ouvindo, compartilhando — e acreditando que ainda podemos construir um mundo melhor. E que, sim, esse mundo ainda cabe em um contêiner. Mas o que importa mesmo é quem o conduz.