(Adobe Stock) Na última edição do Congresso Nacional Integra Portos, tive o privilégio de ministrar um minicurso sobre inovação para os alunos da Escola Técnica (Etec) Zona Leste. Costumo aproveitar esses momentos para propor dinâmicas que estimulem a aplicação prática do conteúdo discutido em sala. Nessa turma especificamente, desafiei os estudantes a pensarem em soluções para melhorar a experiência dos alunos na escola. Fiquei impressionado com o nível das ideias, mas uma, em especial, me chamou muita atenção: a criação de um algoritmo capaz de reconhecer padrões que indiquem estudantes em risco de evasão escolar, permitindo que a escola aja de forma preventiva. Essa proposta se destacou não apenas pela relevância técnica, mas pela empatia demonstrada. Aqueles jovens, apesar da pouca idade, estavam genuinamente preocupados com colegas que, por diversos motivos, precisavam interromper os estudos. E essa preocupação é mais do que legítima. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual (PNAD) 2024, cerca de 8,7 milhões de jovens brasileiros entre 14 e 29 anos não concluíram o Ensino Médio, sendo a necessidade de trabalhar um dos principais motivos para evasão. Os números mostram como a pobreza impõe escolhas prematuras e, muitas vezes, irreversíveis. Fora da sala de aula, as chances de retorno caem drasticamente, e isso costuma significar renunciar a um futuro mais próspero e com oportunidades reais de ascensão. Muitos desses jovens acabam ingressando no trabalho informal, um ambiente sem proteção social ou possibilidades concretas de desenvolvimento. Por isso, é essencial criar alternativas que reconheçam essa realidade e ofereçam caminhos viáveis para que possam melhorar suas perspectivas. É justamente nesse ponto que o setor empresarial pode exercer um papel estratégico, apoiando iniciativas que transformem essa realidade. De acordo com o estudo The Private Sector and Youth Skills and Employment Programs in Low - and Middle-Income Countries, do Banco Mundial, programas de inclusão produtiva com participação ativa das empresas têm impacto direto na redução da evasão escolar e no aumento das oportunidades de emprego formal entre jovens. Aqui, no Porto de Santos, o Programa Formare, desenvolvido em parceria com a Santos Brasil, é um ótimo exemplo de como unir educação e empregabilidade. A iniciativa capacita jovens de 17 a 19 anos da comunidade portuária, combinando formação educacional com treinamento técnico, para que possam ingressar no mercado de trabalho sem abandonar os estudos. O programa já formou mais de 300 jovens - muitos deles contratados pela própria companhia - e, mais, cerca de 90% não apenas permaneceram na escola, como seguiram a trajetória acadêmica. Para as empresas que desejam seguir esse caminho, o ponto de partida é olhar para sua própria comunidade. Entender quem são os jovens ao redor, quais barreiras enfrentam para permanecer na escola e quais competências o setor mais demanda. A partir desse diagnóstico, surgem oportunidades de parceria com escolas técnicas, universidades e programas de aprendizagem que conectam formação e mercado. Estágios com jornada reduzida, bolsas de estudo, mentorias e cursos técnicos são iniciativas simples, mas que podem transformar realidades quando estruturadas com propósito e alinhamento local. Mas a pergunta permanece: por que fazer isso? De forma pragmática, porque investir na educação dos jovens é, antes de tudo, investir no próprio futuro da empresa. O exemplo da Santos Brasil mostra que o programa vai muito além de uma ação social, é uma estratégia de formação de talentos em um setor que ainda carece de mão de obra qualificada, preparando desde cedo profissionais alinhados à cultura e aos valores da organização. Afinal, em um mercado cada vez mais competitivo, existe investimento mais inteligente do que formar as pessoas que construirão o futuro da sua própria empresa?