(Divulgação/Santos Port Authority) Eu sempre imaginei o futuro do trabalho como uma dança entre homem e máquina, mas quem está dançando mesmo é a operação – enquanto a liderança ainda ensaia os passos. A Anthropic, criadora do Claude AI, um dos maiores e melhores modelos de linguagem do mercado, lançou recentemente um índice econômico que mostra isso: 57% do uso da inteligência artificial (IA) amplia nossas capacidades humanas, e 43% do uso automatiza tarefas. Mas aponta também que enquanto profissionais da base já abraçam a IA com entusiasmo, a classe executiva parece hesitar, deixando um mar de oportunidades escapar. Como professor e empreendedor, vejo de perto essa transformação. E não é só o resultado de um estudo isolado – os números falam por si. O índice da Anthropic revela que ocupações operacionais, como as ligadas à computação e à logística, estão entre as que mais interagem com inteligências artificiais, com destaque para tarefas práticas como análise de dados e automação de processos. Em contrapartida, cargos de gestão de alto escalão aparecem bem atrás, com uso bem mais tímido. Uma pesquisa recente da McKinsey (2024) corrobora isso: enquanto 72% das empresas já integram IA em pelo menos uma função operacional – como otimização de rotas ou previsão de demanda – apenas 41% dos executivos dizem usá-la regularmente no trabalho. Por quê? Talvez porque a liderança ainda não tenha enxergado o que pode extrair de melhor da IA em termos de apoio à tomada de decisão. Outros fabricantes de IA, como OpenAI e Google, também mostram essa tendência. O ChatGPT, por exemplo, é febre entre profissionais que o usam para redigir relatórios ou extrair insights de dados brutos – tarefas que economizam horas. Já o Gemini, do Google, ganha terreno em equipes de base que precisam de respostas rápidas para problemas do dia a dia. Mas quando nos escritórios de diretoria, o cenário muda: um estudo da Forbes (2025) indica que menos de 30% dos gerentes de grandes empresas usam IA para simulações estratégicas ou projeções econômicas. Nos portos, não é tão diferente. A IA está presente em soluções que operam guindastes remotamente ou embarcadas nas mais diversas plataformas de software, bem como na mão dos profissionais da base por meio de assistentes ou agentes, mas com uma atuação tímida no processo decisório. Uma exceção são os departamentos de inteligência competitiva nos portos, que já abraçam a IA. Na prospecção de cargas, ela analisa padrões de mercado e prevê fluxos de importação e exportação, ajudando terminais a atrair novos negócios. Na precificação de contratos, a IA cruza dados de concorrentes e condições globais para definir tarifas competitivas e lucrativas. Isso me preocupa e, ao mesmo tempo, me anima. Por quê? Porque há um mar de oportunidades. Imagine a IA sendo usada na manutenção preditiva de equipamentos, monitoramento ambiental, otimização de posicionamento de carga, distribuição de filas. No porto, um analista pode usar IA para limpar dados de tráfego em segundos e focar em estratégias de longo prazo, enquanto um operador delega o monitoramento de sensores à IA, concentrando-se em decisões críticas. A IA é uma parceria, não uma ameaça. Como escrevi em um outro artigo desta coluna, “Quem precisa de gêmeos digitais?”, a tecnologia amplifica o que há de melhor em nós. A inteligência artificial não é só para os profissionais da base operacional – ela deveria estar nas mãos de quem toma decisões. Análises preditivas para antecipar crises na cadeia de suprimentos, projeções econômicas para negociar com armadores, análise de cenários complexos para planejar investimentos – tudo isso está ao alcance da IA. Esta nova e temida tecnologia está moldando o futuro do trabalho nas operações portuárias e em toda a cadeia logística, mas não de maneira ameaçadora. Ela amplia nosso potencial e nos convida a dançar junto. Enquanto a operação dança com a IA, a liderança ainda ensaia os primeiros passos – que tal uma dança?