Foto ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) Quando se fala em automação no Porto de Santos, a imagem que vem à mente de muitos é a do desemprego em massa, de robôs substituindo trabalhadores e de famílias desamparadas. É uma visão compreensível, alimentada por um medo genuíno, mas que considero perigosamente míope e que nos desvia do debate correto. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O setor portuário santista é historicamente marcado pela força de seus sindicatos, entidades que foram fundamentais na conquista de direitos e na proteção do trabalhador. No entanto, hoje, vejo com enorme preocupação que essa mesma força, muitas vezes por desconhecimento, ignorância ou fisiologismo, corre o risco de engessar nosso futuro. Ao levantar a bandeira da “preservação de vagas de trabalho” a qualquer custo, muitos se opõem a investimentos em automação que são importantíssimos para a nossa competitividade. O que essa resistência não percebe é que, ao tentar preservar os empregos de hoje, está impedindo a criação de milhares de novos postos de trabalho do amanhã — vagas mais seguras, com melhores salários e que exigirão um nível de qualificação muito superior. A história nos mostrou inúmeras vezes que a automação não é o fim do trabalho, mas a sua profunda transformação. Ela invariavelmente aumenta o volume e a qualidade das oportunidades a longo prazo, beneficiando toda a comunidade. A realidade da modernização não é um “porto fantasma”. É a transição do operador de guindaste que arriscava a vida no pátio para um centro de controle climatizado e seguro, operando o equipamento com mais precisão por meio de um joystick. É a supressão de funções braçais e insalubres, que tantas vezes resultam em doenças ocupacionais, e a criação de profissões como analista de capacidade de navios, especialista em logística digital ou técnico em cibersegurança portuária. Não podemos ser ingênuos; essa transição não é automática. Ela exige um pacto social. A cidade e as autoridades precisam criar mecanismos claros que incentivem os investimentos em automação, ao mesmo tempo em que promovem massivamente a requalificação da mão de obra. Iniciativas para discussão de políticas para os trabalhadores e o financiamento de cursos de capacitação são passos importantes, mas ainda tímidos diante da urgência do desafio. Esse pacto deve ser tripartite: as empresas operadoras, que se beneficiarão da eficiência, precisam financiar grande parte dessa transição; o poder público, em todas as esferas, deve criar as políticas de incentivo e desburocratizar a implantação de novas tecnologias; e, mais importante, as instituições de ensino, como universidades e escolas técnicas, precisam se alinhar a essa demanda, criando currículos ágeis e focados em competências como análise de dados, automação de processos e manutenção de equipamentos inteligentes. Não podemos esperar que o trabalhador busque essa qualificação sozinho; a estrutura para seu desenvolvimento precisa ser oferecida de forma proativa e acessível. O pioneirismo aqui é a chave. O porto que conseguir navegar por essa transição de forma inteligente e inclusiva não estará apenas garantindo sua sobrevivência. Ele se tornará uma referência regional, talvez global. Será o modelo a ser estudado e replicado, e seus profissionais qualificados serão disputados para liderar projetos de modernização em outras regiões. Quem sair na frente ganhará escala e ditará as regras do jogo. A questão, portanto, não é se a automação vai transformar o trabalho no Porto de Santos, mas como vamos gerir essa transformação. Podemos nos entrincheirar em uma batalha perdida contra o futuro, defendendo um modelo de trabalho que já se tornou obsoleto, ou podemos abraçar a mudança, investir pesado na qualificação da nossa gente e liderar o caminho para uma nova era de prosperidade e trabalho qualificado. A escolha que definirá as próximas décadas está em nossas mãos.