(Wilson Dias/Agência Brasil) (O Ministério dos Textos que Contêm Ironia adverte: interpretação de texto faz bem à saúde mental.) Já sei o que quero de Natal. Não é nenhum presente que possa ser contabilizado no previsto aumento de vendas do comércio varejista para a época. Meu desejo é dar um golpe de Estado. Na verdade, só tentar. Confesso: que eu me livre de dar certo, porque, para sustentar uma ditadura, teria de perseguir, cassar, matar muita gente para continuar no poder com um grupo de privilegiados que eu desejasse — ou bajulasse por décadas para eu não ser, também, deposto. Aqui no Brasil é bom. O crime compensa. Ora, se o líder governista de uma casa legislativa afirma que é “político” e que não deve “ter medo” de repercussões negativas que facilitem a vida de golpistas fracassados, por que não eu? Algum partido político pode abonar minha ficha de filiação. Posso, até, virar presidente honorário dele, e darem para mim e meus familiares um salário mensal muito maior que os vencimentos de uma vida inteira trabalhando sábados, domingos, feriados. Não cogito da certeza do golpe. Repito: só quero tentar. Como se diz por aí, “sou CLT” e me descontam todo mês a Previdência e, por baixo, garantiria um auxílio-reclusão. Reconheço que não sustenta uma família, mas não seria difícil encontrar apoiadores para minha causa. Que é simples: não gostei do resultado da eleição; preciso impedir que o presidente eleito tome posse e, de quebra, a posse do vice, a manutenção dos ministros do Supremo, a interferência de alienígenas. Eu não usaria balas de verdade. Mas acertaria o alvo, ainda que de raspão, para que ninguém viesse dizer que “tentativa não é golpe” para me aliviar. Quero ser condenado. Esse mamão com açúcar que o Congresso aprovou, inclusive com votos de deputados da Baixada Santista, deve virar lei. Aí é mole: dois aninhos num quarto climatizado — isonomia! —, tevê, frigobar, livros, muito papel e canetas (gosto de ler e escrever). O tempo voa. E, depois, lar, doce lar. Como herói, lenda, mito. Solto, faria comícios, viajaria o Brasil bancado por dinheiro público (o do partido do qual seria presidente de honra), comeria e dormiria bem e de graça. Acho que, nessa leseira, nem me daria o trabalho de publicar aquele livro escrito na cadeia. Ele se chamaria “Minha Luta”, mas daí me lembrei de que Hitler fez um com esse título. Mesmo golpistas fracassados devem ter ética. E seria visto como defensor dos bons costumes que sustentam esta nação verde-amarela. Em breve, pelo visto, se poderá dizer que ser golpista fracassado é legal nos dois sentidos: por ser bacana e por estar na legislação. O papel aceita tudo. O Congresso também. (Agora, a parte sisuda deste texto. Está perto de se abrir caminho a uma instabilidade permanente, com os personagens de sempre. Redução de penas é estímulo para criminosos. De tanto se tentar, poderá dar certo. Não será contra o “sistema”. O “sistema”, na verdade, são os que acusam a existência de um, pois estão unidos, já não mais secretamente, ao que há de pior.)