(Vanessa Rodrigues/AT) É força de expressão: não daria para incluir os nomes de mais de 700 mil cidadãos residentes em Guarujá e Santos em uma placa de inauguração do túnel entre as duas cidades, cuja iniciativa conjunta entre os governos Federal e Estadual foi anunciada formalmente nesta quinta (27). Seria uma tarefa difícil ainda que se registrassem no metal apenas as dezenas de milhares de pessoas que cruzam diariamente as duas cidades. O que se quer dizer é que o túnel está saindo só agora, depois de praticamente um século desde o primeiro projeto a respeito, não por força de PPP, como se tem chamado o instrumento da parceria público-privada — e que, no caso do túnel, significa também uma parceria ‘político-partidária’ composta de governos de partidos diferentes e, na aparência, ideologicamente distantes. Há de existir túnel, no que se acreditará quando a obra estiver encerrada, por força do descrédito popular. Nenhum indivíduo sem amarras, como as de ocupar um cargo de confiança ou exercer assessoria política para quem está no poder e sempre com salários acima da média geral, crê em governos. Já houve de tudo por aqui: maquete de ponte, mudanças de localização do projeto, militar alegando que uma ponte seria inviável porque poderia ser explodida em uma hipotética nova guerra contra o Paraguai, promessas e prazos que renderam manchetes e nenhum fato concreto (com trocadilho). É justo que muitos políticos do passado tenham sido ridicularizados por não ter havido túnel nem ponte. Se não lhes coube multa nem processo por estelionato, o descrédito coletivo acabou sendo seu pagamento. É provável que não se abalem por isso; caso todos eles se incomodassem, teríamos túnel desde a década de 1930 e já estaríamos com outro aberto ou, no mínimo, planejado. Ora, se parte desses políticos foi reeleita apesar de tanta coisa, entende-se por que desdenham do público. Agora, enquanto se cruza os dedos para que o túnel realmente saia, é de se exigir dos políticos de Santos, Guarujá e de outras cidades da Baixada Santista que se antecipem às consequências viárias, imobiliárias, ambientais e de custo de vida para quem vive nas regiões abrangidas pela obra. E longe dela. Como evitar que os preços de aluguéis e imóveis à venda subam tanto? De que forma refrear um forçado deslocamento de gente que não poderá pagar valores mais altos? Que fazer para que as periferias, especialmente em Guarujá, cidade com maior índice de pessoas em favelas na região, não fiquem ainda mais sobrecarregadas? Como prefeitos de Bertioga, São Vicente, Praia Grande — por exemplo — tratarão com os colegas santista e guarujaense dos efeitos coletivos da obra? Vereadores e deputados estaduais e federais também devem se sentir convidados a participar desse debate. Não bajulando seus aliados políticos, mas ajudando a fazer com que se tenha cuidado com o que se deseja. E não se leve à tragédia pela qual o túnel, esse buraco de alto custo, conduza os municípios locais a outro, para o qual nenhuma promessa dará jeito.