(FreePik) A indignação dos políticos que desejam herdar o espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro é sólida como geleia. Governadores de direita interessados em disputar a Presidência no ano que vem apenas bravateiam. Eles conhecem as razões incontestáveis pelas quais o esperado julgamento pelo Supremo Tribunal Federal vem aí. Também sabem que Bolsonaro é sobrenome fora da corrida ao Planalto, dado o rápido derretimento de uma aura de honestidade e fé de origem inexplicável. Não quer dizer que, perante tais adversários em potencial — Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteja potencialmente reeleito. O cenário de hoje é um: como indicam pesquisas, a maioria dos entrevistados direciona de maneira precisa a culpa pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o risco à produção daquilo que se destina à exportação, a dúvida quanto à manutenção de empregos. Mas, amanhã, o vento sopra. A eventual concretização de uma crise levaria à retomada da polarização política para o 50-50 da eleição presidencial de 2022. Hoje, mais uma vez conforme sondagens de opinião, ela se aproxima de um 60-40 a favor do Governo. Se este não reagir de modo capaz de aliviar uma possível queda de faturamento de empresas, de segurar postos de trabalho e compensar diminuições de receita, o discurso da “soberania” nacional se transformará no da “agonia” populacional. Também há o fenômeno pelo qual estatísticas favoráveis sobre emprego, renda e preços são incapazes de superar discursos estranhos proferidos por gente de moral duvidosa. Os elementos esquisitos que levaram ao resultado de 2018 e aos efeitos previsíveis de um mandato incapaz para o trivial e quase nulo numa pandemia (694 mil mortes pela covid-19 até o fim de 2022; desde então, mais 22 mil) podem se repetir. Poucos são mais craques no que fazem do que os mentirosos. Os temores eleitorais vividos a cada dois anos seriam menos intensos se as cidades, os estados, o Brasil dispusessem de uma classe política mais qualificada. Não no discurso, porque pode enganar, nem apenas na técnica, pois pode piorar males. É questão de vergonha na cara. Em especial, na de quem vota. Não adianta exigir bons princípios de quem não os tem. Percebe-se isso vendo a semelhança ou a diferença entre palavras e atitudes. Mas pensar nisso só na hora de votar é inútil. No que entra o eleitor da Baixada Santista, cujos representantes, há décadas, estão fora das listas dos mais influentes do Congresso Nacional e, assim, têm mais dificuldade em expor e fazer valer suas pautas? O valor de seu voto está em contribuir para uma boa formação do Legislativo, com deputados federais mais preocupados em atuar favoravelmente ao cidadão do que em gravar vídeos recebendo visitas no gabinete ou participando de eventos políticos travestidos de causas sociais. O mesmo vale para a escolha de deputados estaduais, pois parte deles se ocupa em defender o que o exterior pensa do Brasil do que em agir pela região.