(Matheus Tagé/AT/Arquivo) Foi necessária uma decisão judicial, noticiada por A Tribuna na terça-feira, para que se suspendessem os pregões eletrônicos que a Câmara faria naquele dia para aluguel de até 21 carros com motorista e para o abastecimento desses veículos. Mais do que impedir o surgimento de uma despesa estimada em até R\$ 4,5 milhões por ano, a Justiça fez o que nenhum dos legisladores santistas exerceu nas semanas entre o lançamento do edital e a sentença: tocou no assunto. O silêncio omisso antes que a liminar fosse expedida equivale a concordar com a medida da Mesa Diretora da Casa, de iniciar uma concorrência de preços para a prestação de um privilégio que já não mais existe há 34 anos. Naquele distante 1991 em que se decidiu leiloar 21 Opalas, modelo de alto padrão na época, foi tanto por uma questão de economia quanto para dar um sinal de moralização em parte de comportamentos oficiais exageradamente incômodos à sociedade. Sucessivas medidas de transparência adotadas pela própria Câmara santista, como obrigar vereadores a declarar seus bens de forma periódica e publicar a relação de cargos e salários de seus funcionários, se somaram a normas nacionais, como a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esta, basicamente, determina que não se deve gastar mais do que se recebe. Por isso, a Câmara de Santos de hoje, como inúmeras outras, é melhor e mais decente do que era há três décadas e meia. Mas essa limpeza de costumes não pode servir de base para que, sob a justificativa de se exercer melhor a atividade parlamentar, se dê aos 21 vereadores de Santos um privilégio inexplicável, que não se concede a nenhum gari, coletor de lixo, motorista de ônibus, pedreiro, jornalista, médico nem a quaisquer outros trabalhadores da iniciativa privada e pagadores de impostos: a benesse de ter sua condução, a quaisquer horas e lugares, paga com dinheiro público, do contribuinte. Mais do que um conforto arcaico, ter carro para ir aonde o povo está — associações de bairro, filas de policlínicas, churrasco em jogo de várzea para abraçar eleitores em potencial — consistiria em instrumento de campanha política permanente e em condições desiguais com quem pretende entrar na política e nem com um partido pode contar, financeiramente, para esse fim. É quase que surpreendente que nenhum vereador tenha levantado a voz publicamente. Não só para dizer que não pediria um carro para seus serviços caso o pregão tivesse ocorrido, mas, em especial, para bradar que faria o possível para impedir que acontecesse. Quem ganha R\$ 18 mil brutos por mês tem plenas condições de possuir um automóvel. Se não o deseja, pode apelar a transporte por aplicativo, ônibus coletivo, bicicleta. Às próprias pernas, se não quiser gastar de seu bolso. Quando, porém, se declara que é “quase”, mas não que seja supreendente tal postura, é porque o noticiário da última década sobre os benefícios que parlamentares país afora têm atribuído a si mesmos não permite acreditar sem reservas no desprendimento da classe política.