(Arquivo/ Câmara Municipal de Santos) O jornalista Reynaldo Salgado, ex-repórter especial de A Tribuna e que por décadas cobriu a política regional — inclusive, à frente da coluna Dia a Dia —, me deu a notícia da morte de José Fernando Branco de Oliva, advogado e funcionário aposentado da Câmara de Santos. Não o conheci. Mas, como Salgado frisou em sua mensagem, era filho de um histórico ex-vereador da Cidade: Fernando Oliva, na Casa por 36 anos e presidente dela cinco vezes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Oliva, o pai, é alguém que já havia deixado o plenário quando comecei minha atividade profissional. Não foi reeleito em 1992, a última eleição que disputou, mas continuou frequentando o Legislativo como assessor político da Presidência. Foi o primeiro sinal que vi de boa convivência entre ele e opositores ideológicos. Oliva, conservador convicto, ocupou a função quando a então vereadora Maria Lúcia Prandi, do PT, presidia a Câmara (a única mulher até hoje a fazê-lo). Foram reportados por Salgado, na Dia a Dia de 17 de maio de 1994, dois dias após a morte de Oliva, elementos como estes a respeito do ex-vereador: “Mais do que ninguém, sabia de tudo nos bastidores da política”, “era o ‘bombeiro’ nos momentos em que o Legislativo passava por grandes crises”, “defensor intransigente do Poder (Legislativo)”, “mesmo sem mandato, Oliva não guardava mágoa dos eleitores”. Ao tratar da relação dele com prefeitos, “inúmeros projetos de lei do Executivo, especialmente os mais polêmicos, só foram aprovados com sua intermediação. E, mesmo quando tinha maioria garantida, não deixava de aceitar emendas dos opositores, pois sabia que isso era necessário para valorizar a atuação do Legislativo”. Ainda: “Durante mais de uma década, Fernando Oliva presidiu a então poderosa e respeitada União dos Vereadores do Brasil, instituição que ajudou a criar”. Ex-vereador e contemporâneo de Oliva, o cientista político Alcindo Gonçalves relatou, em artigo no dia 26 daquele mês em A Tribuna, algo que ainda se sente: “Vivemos dias em que a política é algo maligno, menor, abominável. Desprezam-se a política e os políticos. (…) Oliva representa exatamente o contrário de tudo isso: sua figura e sua história de vida glorificam e exaltam a política em seu sentido mais amplo, ou seja, a arte de negociar, de brigar por interesses e sustentar ideias”. Ideologicamente oposto a Oliva, que “lutava por suas ideias conservadoras e era extremamente coerente em sua defesa”, Gonçalves ainda respondeu a uma brincadeira que o ex-presidente da Câmara fazia, quando “afirmava, sem receio, que o povo não sabia votar, e por isso, o elegia sempre”. Este foi o parêntese que o cientista político acrescentou: “Eis aí o seu grande erro: o povo sabe votar, sim, e exatamente por isso sempre elegeu um grande vereador como ele”. Talvez a condenação e a iminente prisão de espíritos golpistas conduza à volta ao argumento na política, em substituição à bravata e à maldade de antidemocratas interessados em poder e dinheiro para si, sempre contra o País e com desprezo pelos que os sustentam.