( Matheus Tagé/AT/Arquivo ) Quando se procuram significados nos dicionários para o substantivo “crise”, os dois primeiros são vinculados à medicina: “Momento decisivo em uma doença, quando esta toma o rumo da melhora ou do desenlace fatal” e “alteração súbita, geralmente para melhora, que se verifica no curso de uma doença aguda”. Quando se fala em política, crise também pode significar “estado em que a dúvida, a incerteza e o declínio se sobrepõem, temporariamente ou não, ao que estava estabelecido como ordem”. Ou “ausência ou deficiência de algo; carência, escassez, falta”. Ainda: “conjuntura desfavorável; situação anormal e grave” e “lance embaraçoso que tende a ser duradouro”. Mas esses livros ou sites não emitem juízos de valor sobre crises. Nada opinam, nem é função deles, sobre a situação de alguém gravemente doente por ter sido infectado de propósito ou por se lhe negar tratamento. Nem comentam quando se força a barra na especulação financeira ou com o objetivo de desestabilizar um governo. Os quatro vereadores do PL na Câmara de Santos, de oposição, afirmam que a Prefeitura vive uma “crise institucional”. Isso se dá porque eles estão em conflito com a secretária municipal de Segurança, Raquel Gallinati. Ela também é filiada ao PL, mas aceitou, ainda na pré-campanha eleitoral do ano passado, assumir o posto no governo Rogério Santos. A candidatura de Rosana Valle ao Executivo, vencida, mas que chegou ao segundo turno, fez do PL o partido com maior bancada, ainda que a Casa esteja pulverizada em dez partidos e que 14 dos 21 vereadores sejam governistas. Mas o quarteto, reforçado com o advogado Rui De Rosis Junior e o influenciador digital Allison Sales, se tornou mais ruidoso do que as oposições de anos anteriores. Seja porque se descobriu o uso de um veículo descaracterizado em viagens para a Capital, porque teriam faltado guardas municipais nas ruas após um assalto (mas se poderia ter apelado à polícia) ou porque a secretária teria dito em um vídeo para “mandar tudo à m….”, em alusão ao trabalho fiscalizador dos vereadores, os oposicionistas produziram uma crise alimentada há semanas no plenário e em redes sociais. A Câmara mesma emitiu nota de repúdio às declarações atribuídas a Raquel, ressalvando que seriam “supostas”. Porém, tomou essa atitude incomum, senão inédita. Não quer dizer que o Legislativo se tornou oposicionista. No entanto, significa que há incômodo, isto é, uma crise que poderá tomar “o rumo da melhora ou do desenlace fatal”. Por ter uma numerosa tropa de vereadores, o Município pode esperar alteração “geralmente para melhora” da condição dele. Mas a postura da secretária, uma suplente de deputada estadual assídua em redes sociais e programas de televisão em São Paulo, ofusca suas qualidades enquanto delegada licenciada da Polícia Civil e dificulta ver sua política de segurança. E amplifica eventuais defeitos na condução da pasta. Exonerar a secretária poderia ser um “desenlace”, mas também uma nova “crise”, por dar à oposição força para mexer no governo.