Foto ilustrativa (Vanessa Rodrigues/ AT) Quase todos os políticos se dão bem. Quem chega a uma Câmara Municipal minutos antes de uma sessão vê governistas e oposicionistas conversando, e não é sobre política. São assuntos triviais como os de quase todas as pessoas que se encontram casualmente: o jogo de futebol da véspera, uma camisa mais social em quem nem sempre a usa, brincadeiras particulares. No plenário e nas tribunas, podem surgir rusgas, mas não são brigas de morte. Passam. E a vida segue. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Esse cenário nos legislativos não é ruim, nem sequer um problema. Apenas prova que, a despeito de tudo que dizem, que fazem e do que afirmam fazer, políticos dialogam. A Câmara de Santos tem uma situação especial, que é a de uma oposição dividida ideologicamente. Se os vereadores dessas duas bancadas em uma só, com PL de um lado e PT e PSOL do outro, não se falassem, não chegariam às convergências que têm, mas as ignorariam se virassem o rosto para lados contrários. Havia civilidade até na ditadura. Cassado antes da posse como prefeito e proibido de fazer política, Esmeraldo Tarquínio esbarrou com o antecessor Sílvio Fernandes Lopes em um restaurante. Tarquínio se opunha ao regime, e Lopes foi “o homem da Revolução” em Santos. Após o encontro, o filho mais velho de Tarquínio, com 12 anos e ciente da realidade política, estranhou a conversa. A resposta do pai: “Filho, ele não é meu inimigo, é meu adversário. E adversário a gente respeita”. É claro que existem pontos inegociáveis. Era impensável que políticos brasileiros denunciassem torturas e mortes de cidadãos em porões obscuros sem perder o mandato — os deputados locais Nelson Fabiano, estadual, e Marcelo Gato, federal, foram cassados por falar. Mais recentemente, impossível aceitar governantes que ridicularizassem os efeitos da pandemia e desestimulassem a vacinação. Há coisas a combater, ainda que impliquem não mais poder sorrir durante um cafezinho. Mas, em geral, as desavenças são momentâneas, quando não fabricadas. Aliados podem se separar, e adversários, unir-se. Quem diria que, preso pelo mensalão na época do PT, do qual era aliado, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, seria estrela de campanha partidária na tevê para expressar “saudades” do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje inelegível? O mesmo PL que deteve a vice-presidência nos primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva: o industrial José Alencar. Essas são histórias antigas e novas que servem para relembrar obrigações morais e cívicas: jamais idolatrar políticos; nunca dar fé incondicional a discursos; desconfiar do tom messiânico de quem disputa cargo eletivo, ainda que ele se encaixe no que nós achamos que pensamos; pôr em dúvida quem tem saídas fáceis para problemas difíceis; relegar ao esquecimento quem nunca mostrou a que veio — ou, pior, mostrou e causou estragos irreparáveis a centenas, milhares, milhões de vidas. Um caminho para resolver antigas dificuldades não é eleger políticos como nós, mas melhores do que nós. Quem já tem mandato é parâmetro, bom ou ruim.