Vivemos tempos em que, não raras vezes, os pais se veem tentados a proteger os filhos do mundo através da criação de um mito de invulnerabilidade (Imagem ilustrativa/Pexels) Há algum tempo, em uma coluna anterior, compartilhei um pequeno episódio cotidiano que vivi com minha filha, quando, no trajeto para a escola, ela me contou — com brilho nos olhos — sobre uma apresentação em inglês que havia feito diante dos colegas na escola. Recordo-me de como aquele diálogo singelo desaguou numa conversa mais profunda sobre o medo e a coragem. Disse a ela, naquela ocasião, algo que sempre acreditei ser importante: às vezes, os passos mais firmes são dados com as pernas tremendo. Curiosamente, o tema daquele texto continua a visitar meu pensamento com frequência. Afinal, ainda hoje, mesmo depois de tantos anos frequentando salas de audiência, tribunais do júri, auditórios de congressos e salas de aula, o medo segue como um velho conhecido. Não há beca, microfone ou púlpito que me imunize contra o tal "friozinho na barriga". E confesso: ainda bem que não há. O medo, longe de ser um inimigo, tem sido um companheiro discreto, que me avisa que o momento exige respeito, atenção e entrega. Cada sustentação oral, cada júri, cada palestra diante de dezenas ou centenas de olhos atentos reacende em mim aquele mesmo calafrio que, certa vez, minha filha experimentou diante da turma. São nessas horas que percebo o quanto aquele instante com ela, relatado anteriormente, se repetiu inúmeras vezes — não apenas no meu ofício, mas também nas conversas que seguimos tendo. São momentos em que, como pai, procuro mostrar-lhe que sua imagem de mim não precisa ser a de um herói imbatível. Vivemos tempos em que, não raras vezes, os pais se veem tentados a proteger os filhos do mundo através da criação de um mito de invulnerabilidade. Uma armadura fictícia que, na ânsia de acalmar, acaba por distanciar. Creio que uma das tarefas mais valiosas na paternidade seja justamente a desconstrução dessa ilusão. Mostrar-lhes que não somos heróis invencíveis, mas homens e mulheres em constante aprendizado. Que também sentimos receio, que nem sempre temos as respostas prontas e que, mesmo assim, seguimos em frente. É nesta humanização que reside a beleza do vínculo. A vulnerabilidade não diminui a autoridade dos pais — pelo contrário, aproxima. Ensinar aos filhos que o medo existe, mas que pode ser enfrentado, não é uma confissão de fraqueza; é uma lição de força madura. É mostrar que o caminho da coragem não está em jamais sentir medo, mas em saber caminhar com ele ao lado. Trata-se de uma das heranças mais valiosas que podemos oferecer aos nossos filhos: a liberdade de serem corajosos à sua maneira, ainda que com as pernas trêmulas. Por vezes, ao me deparar com meus próprios desafios profissionais — sejam os julgamentos tensos, as teses difíceis de sustentar ou as responsabilidades que o magistério traz — lembro do sorriso cúmplice que minha filha me deu naquele dia. E agradeço pela oportunidade de poder, no ofício de pai, revelar-lhe essa dimensão tão humana de quem sou. No fim das contas, ensinar sobre o medo é, também, ensinar sobre o amor.