(Unsplash) Julho é um mês que carrega, no imaginário de muitos, a brisa das férias escolares, o silêncio das salas de aula, as malas prontas para algum destino, os dias que passam sem pressa. Em outras palavras, chega com a promessa de descanso. No meio jurídico, todavia, a pausa nem sempre vem por inteiro. Os prazos continuam a vencer, as audiências se acumulam, júris são marcados e o telefone do escritório não diminui o ritmo. No meu caso, julho é mês de férias pela metade. A universidade faz uma pausa, mas o escritório, não. O trabalho segue no passo do cotidiano: sustentações orais, redações de peças, atendimentos e, vez ou outra, aquela alteração inesperada na agenda. É nesse cenário de movimento constante que, neste ano, um doce elemento foi incluído: Laura, minha filha, está de férias da escola. E, em vez de passar o mês inteiro entre recreações e viagens, resolveu aceitar um convite que lhe fiz — ou talvez tenha sido ela quem o propôs: passar alguns dias comigo no escritório. Para ela, tudo parece uma aventura. O entra e sai de pessoas, as conversas sérias, as cópias dos processos sobre a mesa — impressas por hábito meu, ainda que vivamos na era digital, coisa de advogado antigo —, a formalidade das palavras trocadas entre colegas e clientes. Aos olhos dela, aquilo que para mim já se tornou rotina assume ares de descoberta. Sente-se grande por sentar-se em frente ao computador, por receber uma explicação sobre o que estou escrevendo, por folhear papéis que, aos poucos, passam a parecer importantes. Outro dia, quando estávamos voltando para casa, me disse: “Pai, acho que quero ser advogada”. Confesso que me alegrei. É bonito ver um filho se interessar pelo nosso ofício, enxergar sentido naquilo que escolhemos como caminho. Mas a alegria veio acompanhada de uma pontada de apreensão — não por duvidar da capacidade dela, pelo contrário. Mas por saber o que pode pesar sobre os ombros de um filho que decide trilhar a mesma estrada dos pais. Ser filho já é, por si só, tarefa desafiadora. Há sempre olhares externos que comparam, expectativas que se formam, referências que antecedem o próprio gesto. Imagino o que é crescer ouvindo “é filha de fulano”, “tem a quem puxar”, ou, ainda pior, “vamos ver se faz jus ao nome”. No Direito, onde o nome e a reputação são muito valorizados, essa comparação pode se tornar um obstáculo difícil de superar. E, ainda assim, há coragem nisso. Há beleza em escolher, mesmo diante dessas pressões, um caminho que inspira — não por imposição, mas por afinidade. Por ora, sigo apenas com a alegria de tê-la por perto nesses dias iniciais de julho. Entre um atendimento e outro, ela me acompanha, me observa, faz perguntas. E eu a vejo crescer em silêncio. Talvez, no futuro, ela siga por esse mesmo caminho. Talvez não. O que importa, por enquanto, é que ela saiba que a escolha será sempre dela — e que estarei aqui, seja qual for o rumo que decida tomar. Porque, mais do que uma profissão, meu ofício maior é este: ser pai.