(Imagem Ilustrativa/Unsplash) Nesta sexta-feira (12) completei 45 anos de idade, e a imagem que me veio, inevitável, foi a de um apito anunciando o fim do primeiro tempo. Há algo de simbólico nesse número: como se, ao alcançar metade da partida, eu pudesse finalmente olhar para trás e ver o gramado percorrido — às vezes com arrancadas cheias de coragem, outras com tropeços que ensinam mais do que gostaríamos. Entre amores, desamores, desafios e conquistas, sigo para a segunda etapa com a serenidade de quem sente ter honrado o uniforme que veste. Tenho comigo o que mais importa. Minha família permanece ao meu lado, e minha filha Laura se tornou a luz que atravessa qualquer obstáculo no campo. É por ela, e por todos os meus amores, que sigo jogando com mais responsabilidade e mais ternura. No trabalho, vivo aquilo que um dia só ousava sonhar: exercer a advocacia criminal com a dignidade e o propósito de transformar vidas, mesmo que uma pequena parte de cada vez. Já escrevi sobre isso em tantos momentos, talvez numa tentativa de registrar o que a memória insiste em deixar escapar — porque, sim, o tempo correu veloz, e muitas coisas aconteceram diante de mim sem que eu percebesse o quanto eram rápidas. Ainda assim, chego ao intervalo com fôlego. Sinto que posso disputar mais um tempo, talvez até os acréscimos, com a disposição de quem não teme o que o segundo tempo costuma revelar. Sei, claro, que não há qualquer garantia: posso ser substituído sem aviso, expulso por uma virada brusca do destino ou simplesmente não assistir ao apito final. Mas nada disso me intimida. A única certeza que carrego é a de que, enquanto estiver em campo, deixarei tudo o que tenho — suor, entrega, vontade e esse inexplicável senso de propósito que me acompanha — para jogar o jogo da vida com a mais absoluta verdade. Há, dentro de mim, um sentimento que mistura disposição e pena, uma oscilação entre a vontade de avançar e a melancolia de quem sabe que o campo já não é infinito. Disposição porque ainda desejo percorrer mais um grande trecho da estrada. Pena porque percebo que se inicia a fase final da jornada, esse território onde o tempo parece ganhar peso. Confesso que não gostaria de parar nunca. Todavia, transformo essa inquietação em combustível para aproveitar esse espetáculo imprevisível que é viver — como quem sabe que justamente por ser breve é que a partida merece ser jogada de coração. Por isso sigo adiante compreendendo que cada etapa tem sua beleza. Levo comigo a gratidão pelo caminho percorrido, a humildade diante do que ainda não sei e a esperança de quem acredita no sentido de estar em campo. Se o primeiro tempo me ensinou a resistir, o segundo me convida a lapidar — com mais consciência e mais afeto — aquilo que desejo ser. Que venham novas jogadas, novos riscos, novos ventos. E que eu tenha fôlego, lucidez e delicadeza para honrar a partida, enquanto o relógio permitir, fazendo de cada minuto não um simples intervalo de existência, mas a expressão mais sincera do privilégio de viver.