Foto ilustrativa (Sílvio Luiz/AT) Recentemente, assisti novamente ao filme O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball) - uma produção baseada em fatos reais que, mais do que contar a história de um time de beisebol, nos convida a refletir sobre inovação, resistência à mudança e a importância de pensar diferente diante de grandes desafios. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O longa retrata a trajetória de Billy Beane (interpretado por Brad Pitt), gerente do modesto time Oakland Athletics. Diante de severas limitações orçamentárias e da perda de seus principais jogadores, Billy decide romper com os métodos tradicionais do esporte e adotar uma abordagem inovadora: selecionar atletas com base em dados estatísticos, e não apenas em intuições ou critérios subjetivos. Para isso, ele se une a um jovem economista recém-formado em Yale, que propõe o uso de análises matemáticas para identificar talentos subvalorizados no mercado. Naturalmente, a proposta é recebida com ceticismo, críticas e forte resistência - tanto da diretoria quanto da comissão técnica e da imprensa. Ainda assim, Billy persiste. Contra todas as previsões, sua estratégia leva o time a uma das maiores sequências de vitórias da história do beisebol norte-americano. O que isso tem a ver com portos? A resposta, a meu ver, é: tudo. A logística portuária brasileira sofre há décadas dos mesmos gargalos. E seguimos insistindo nas mesmas soluções. Quando o terminal está lotado, fechamos o “gate”. Quando o sistema não funciona, recorremos à boa e velha planilha de Excel. Quando não há caminhões disponíveis, usamos a zona primária como armazém provisório. E assim seguimos: tapando buracos operacionais com improvisos paliativos. A estrutura logística do Brasil é marcada por um alto grau de reatividade, baixo planejamento sistêmico e resistência à mudança. Falta ousadia para testar modelos diferentes, vontade política para integrar modais e coragem para enfrentar a inércia institucional que paralisa nosso progresso. Um exemplo emblemático disso é a dificuldade histórica em adotar um modelo eficiente de hub ports - portos concentradores de carga com distribuição posterior via feeder services, ou navios alimentadores. Trata-se de uma solução amplamente utilizada em diversas partes do mundo, que faz total sentido para um país com mais de 8 mil km de litoral. No entanto, por aqui, a adoção dessa lógica esbarra em questões operacionais, burocráticas, regulatórias e, sobretudo, culturais. Para que o modelo funcione, é necessário muito mais do que boa vontade. É preciso previsibilidade. É preciso confiança no sistema. E para isso, alguns pilares precisam ser construídos com urgência: 1. Infraestrutura portuária: receber navios de grande porte exige investimentos robustos em dragagem, construção de novos berços e aquisição de equipamentos de alto desempenho para movimentação de contêineres. 2. Cabotagem: a navegação entre portos nacionais ainda representa uma fração muito pequena da matriz logística brasileira. Para que seja competitiva, é necessário desburocratizar processos, garantir isonomia tributária em relação ao transporte rodoviário e criar incentivos consistentes à frota nacional. 3. Melhoria das vias de acesso: portos não funcionam isoladamente. A eficiência depende da qualidade das conexões terrestres: rodovias bem mantidas, ferrovias integradas à malha portuária e hidrovias com sinalização e profundidade adequadas. Sem isso, a carga até chega ao porto, mas a um custo logístico altíssimo. 4. Planejamento de longo prazo: é fundamental abandonar o modelo de competição predatória entre portos e adotar uma lógica de complementaridade. Isso exige planejamento nacional integrado, com políticas públicas alinhadas entre os níveis federal, estadual e municipal. A hora de mudar é agora. Temos conhecimento técnico, profissionais altamente qualificados, localização geográfica privilegiada e um mercado com enorme potencial. O que falta é tirar o jogo da zona de conforto. Se continuarmos jogando com as mesmas estratégias de sempre, não podemos esperar resultados diferentes. Está na hora de mudar o jogo.