(Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Aos amigos caminhoneiros, infelizmente, trago uma má notícia — uma que, embora velha conhecida, segue sem solução. Todos já sabem que a rotina de quem transporta cargas até os portos do Brasil é marcada por filas quilométricas, estradas congestionadas e intermináveis horas de espera dentro da boleia. Carregar e descarregar virou uma loteria de paciência. E tudo isso custa caro — não em reais, mas no bem mais precioso de qualquer ser humano: o tempo. Falando nele, o tempo parece escorrer pelos dedos. Vivemos apressados, cheios de compromissos e distraídos com a rotina, a ponto de esquecermos o que realmente importa. A família, por exemplo, fica em segundo plano. Perdemos horas no trânsito e trocamos momentos com quem amamos por paisagens de para-choques, buzinas e rádios ligados. Tudo isso para evitar enlouquecer diante da imobilidade diária. Essa é a vida dura de um caminhoneiro — e o cenário não muda há décadas. É verdade que, uma vez dentro dos terminais, o cenário melhora. O atendimento é ágil, o processo funciona, e os caminhoneiros são tratados com o respeito e a atenção que merecem. Mas do lado de fora, o caos reina absoluto. E, por mais que sejamos perseverantes, continuamos esperando que as autoridades públicas — ou ao menos os executivos da área — assumam essa agenda com a seriedade que ela merece. Por enquanto, o que temos é silêncio. Uma omissão que prejudica não apenas os motoristas, mas também as cidades portuárias, o Estado e até os terminais privados. A triste verdade é que ninguém parece ter tempo — nem interesse — em resolver esse problema. E seguimos sobrevivendo em uma rotina desumana. Quer um exemplo recente? A maior feira de logística da América do Sul, referência no setor, não conseguiu sequer organizar, pelo segundo ano consecutivo, o acesso de seus próprios visitantes. Executivos que gastaram milhares — às vezes milhões — para exibir suas marcas precisaram enfrentar mais de três horas de espera para entrar no evento. Centenas desistiram de participar. Faltou organização, estacionamento, estrutura e, acima de tudo, respeito. Até educação faltou para receber tantas autoridades internacionais. Uma vitrine mundial marcada pela ineficiência local. Se nem mesmo os líderes que investem fortunas em grandes eventos conseguem garantir o mínimo de planejamento logístico, o que esperar para os nossos caminhoneiros, que estão em outra ponta da cadeia — sem poder, sem capital, mas com um papel fundamental na engrenagem econômica? Neste ano, novamente, autoridades, clientes e executivos puderam sentir na pele o que os caminhoneiros enfrentam todos os dias. A diferença é que, para eles, foi por dois dias. Para os caminhoneiros, já são décadas. Alguns se revoltaram. Outros furaram filas. Muitos simplesmente desistiram. Um retrato do país que não planeja seus acessos aos portos — equipamentos estratégicos para a economia nacional — e tampouco seus eventos que deveriam projetar nossas operações portuárias para o mundo. No fim, a culpa nunca é de ninguém. E a responsabilidade é sempre repassada ao próximo da fila — desde que esse próximo não esteja muito ocupado tentando lucrar. Pois bem: temos vagas. Precisamos de gente que entenda de logística. Gente que saiba planejar. Temos muitos portos e muitos eventos pela frente. Alguém se candidata?