[[legacy_image_263629]] O garoto saiu cabisbaixo da escola. Afinal, carregava no fundo da mochila um documento que depunha contra si mesmo. E o pior, ainda tinha que trazer no dia seguinte aquele papel assinado pelos pais. Que fase. No caminho para casa, ensaiava uma justificativa. Poderia dizer uma infinidade de coisas. Talvez o fato de estar cansado fosse plausível. Mas refletiu: os pais diriam que ele só estudava – afinal, estaria cansado de quê? Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Talvez pudesse contar alguma outra história para se explicar: será que acreditariam no fato de que na hora da pressão da avaliação deu branco? Assim, do nada? De repente, toda a matéria desapareceu de sua cabeça, por conta do momento intenso da prova – sem qualquer motivo biológico aparente. Poderia dizer que o conteúdo evaporou de sua memória – deletado pela forte emoção da hora. Mas essa ideia também não ajudaria, afinal, que tipo de preparação psicológica seria necessária para se fazer uma prova? Milhares de outros alunos, em diversas outras épocas, também fizeram provas similares, talvez até piores, e de uma forma ou de outra sobreviveram ao processo. Ele pensou que talvez os pais o pusessem de castigo e proibissem o videogame. Pior: ficaria sem brincar com os amigos, sem ver TV e sem jogar bola. Um desastre. Ele se culpava pela nota. Profundamente magoado pela situação abismal a que se submetera, tentava elaborar uma saída. O garoto fez uma autocrítica e, no fundo de sua consciência, em um primeiro momento, reconheceu: afinal, merecia aquela tenebrosa nota baixa. O arrependimento tomava conta. Devia ter estudado e, principalmente, prestado atenção na matéria durante as aulas. Afinal, até que gostava da disciplina. O problema, na verdade, era a tendência ao desprendimento da atenção. São muitos estímulos, no celular, games, televisão, figurinhas de WhatsApp, uma infinidade de memes que distraem o tempo todo. Pensou novamente e chegou a outra consideração: hoje em dia é mais difícil conseguir ter foco em questões tão herméticas quanto assuntos escolares. E ainda filosofou, advogando em favor de si: propôs teoricamente que, no fundo, a escola é que deveria se reinventar. Mas, logo, voltou à realidade e concluiu que era uma bobagem – ele tirou nota baixa e não a escola. Estava sem saída, nenhuma desculpa parecia razoável. No caminho, tinha a impressão de que era julgado. Apesar de não andar com a prova à mostra, acreditava que estava na sua expressão facial a condenação definitiva. Enquanto atravessava as ruas, observava as pessoas e se perguntava o que será que fariam numa situação como essa. O garoto respira fundo e reconhece: não dá para inventar história, só resta a dura verdade. Aquela nota foi por culpa sua e de mais ninguém. Chegou no prédio e caminhou em direção ao elevador. Na cabine, se olhava no espelho e nem se reconhecia. Afinal de contas, o momento se aproximava. Estava tão nervoso que apertou o botão errado e foi parar alguns andares acima. Resolveu descer pela escada, postergando ao máximo o momento que precedia a bronca. Imaginava centenas de explicações e desculpas, mas tinha uma coisa clara em sua mente: nenhuma delas fazia sentido. Afinal, após essa longa caminhada, chegou na porta de casa. Tocou a campainha. Enquanto aguardava alguém abrir, pegou a prova na mochila. Era melhor revelar a situação logo, parar com aquela angústia e aceitar as consequências da falta de atenção nos estudos. A porta se abre, os pais o esperavam. Antes de qualquer coisa, mostra a prova com a nota baixa e não fala nada. Sente um peso gigantesco da falta de responsabilidade, algo que o impedia até mesmo de se explicar; de fato, pensou que, se falasse algo, certamente, falaria bobagem. Os pais pegaram a prova de suas mãos, leram com atenção os detalhes e perguntaram se ele tinha alguma coisa para falar. A mãe apontou para o 3,75 no topo do papel. O garoto começou a pedir desculpas pela falta de atenção, e que sentia muito pelo resultado. Estava a ponto de chorar. Prometeu se esforçar mais e dedicar mais tempo aos estudos. Os pais reconheceram a consciência do garoto. Disseram: “tudo bem, mas que bom que valia 5,0”. O garoto sentiu um estalo, como se despertasse subitamente. “Valia 5,0?” questionou. Os pais confirmaram e pediram para que tentasse ir melhor na próxima. O garoto estava leve. Mas tinha mesmo que melhorar a sua capacidade de atenção, já que não notara nem mesmo o valor da prova. Aliviado, jogou a mochila no chão, pegou o controle do videogame e, entusiasmado, perguntou: “Posso estudar depois que jogar um pouco?”. Boa semana!