Era uma menina testando um piano elétrico. Com o uniforme da escola, a garotinha corria as pequenas mãos sobre as teclas do instrumento (IA/ChatGPT) Na hora do almoço, pessoas apressadas caminham pela avenida movimentada. Centenas de passos distintos se entrecruzam sobre a textura opaca das faixas de pedestres. Nas calçadas, as vitrines espelham silhuetas humanas errantes correndo incessantemente contra o tempo, enquanto parecem ser observadas, ironicamente, pelos estáticos manequins. Um contraponto entre a realidade e o simulacro. A pressa é uma variável do contemporâneo. Os celulares aceleram o tempo, enquanto as pessoas correm para almoçar, respondem e-mails, pagam contas e consomem todo tipo de aleatoriedade algorítmica a que estão submetidas pela interface digital. Não há tempo suficiente para nada e esta angústia está impressa nos semblantes tristes e ofegantes. Afinal, ninguém tem tempo de observar a vida em ritmo normal. Em meio ao ruído de dezenas de buzinas e o ronco de automóveis e ônibus, pessoas falavam alto gravando mensagens em aplicativos de conversas, enquanto alguns xingavam motoqueiros que trafegavam perigosamente entre retrovisores e pedestres. Então, um som diferente irrompe a bagunça. Um timbre de piano corta a massa áspera de barulho urbano. Limpo e suave, cadenciado e melódico, um toque leve desenha uma bela harmonia. É interessante como nos acostumamos com o alvoroço ensurdecedor da rua, mas estranhamos a música. Algumas pessoas largaram o celular por um momento e procuravam nas redondezas a fonte sonora. Curiosa, uma vendedora de uma loja até desligou o alto-falante que tocava uma música chata para atrair – ou espantar – potenciais clientes. Ali perto, em uma pequena galeria, havia uma loja de música. Quem passava por lá parava na vitrine e tentava desviar das escaletas, violões, pedais de guitarra e acessórios de percussão para enxergar por entre os instrumentos a origem da trilha sonora. Era uma menina testando um piano elétrico. Com o uniforme da escola, a garotinha corria as pequenas mãos sobre as teclas do instrumento. A mãe conversava com o vendedor, que lhe passava os detalhes do piano e formas de pagamento. Parecia que conheciam a pequena pianista, alguns espectadores comentavam que ela sempre passava na loja para testar os novos lançamentos. Por alguns instantes, a rua ficou silenciosa, e a atenção se concentrou apenas nas escalas musicais que a menina traçava com os dedos ágeis e coordenados. Uma pequena multidão se convertia em público para a jovem artista. O talento é um fator poderoso de transformação; como se pudesse libertar os olhares das telas e fazer com que o celular fosse usado como ferramenta de registro da apresentação ao vivo. Uma senhora filmava para mostrar para a neta. Um rapaz queria exibir o vídeo para a mãe. Até mesmo os clientes que testavam outros instrumentos pararam para assistir. Mas, de repente, a pianista encerra a apresentação. A mãe precisava ir embora. Alguns aplaudem timidamente a pequena artista. Aos poucos, as pessoas voltavam à rotina. O dia continuaria barulhento, mas, certamente, um pouco mais bonito. Boa semana! *Matheus Tagé. Fotojornalista e doutor em Comunicação.