(Imagem gerada por IA) Era tarde da noite. Depois de xingar um motoqueiro parado na porta da garagem, o homem, finalmente, chegava em casa. Dentro do prédio, outro problema: o carro de um vizinho bloqueava a sua vaga. Teria que chamar o porteiro para manobrar o veículo. Cansado, decidiu resolver sozinho. A garagem ficava na área descoberta atrás do edifício, e havia espaço para manobrar. Ele pegou a chave na portaria, entrou no carro e começou a dar ré. O celular tocou. Ao atender, verificou um novo problema. Apesar da hora, teria que revisar alguns documentos e enviar por e-mail ao chefe ainda naquela noite. Irritado pela cobrança, estava desatento, e não viu o muro se aproximando pelo retrovisor. De repente, uma batida. Tomou um susto. No banco de trás, uma mochila aberta caiu espalhando objetos pessoais pelo piso do carro. Ele recolheu o que conseguiu encontrar. No entorno, não havia ninguém. Naquele horário, até mesmo o porteiro devia estar cochilando. No dia seguinte, resolveria a questão da batida. Mas enquanto acionava o alarme, tomou outro susto. Na janela do primeiro andar, uma silhueta humana se esgueirava atrás das cortinas. Apesar da escuridão, dava para perceber alguém observando. No dia seguinte, no elevador, um aviso indicava que estava proibido manobrar o carro de terceiros sem avisar o síndico. Agora, ele tinha certeza de que foi denunciado. Procurou o síndico para justificar honestamente o pequeno acidente. O síndico, então, interrompeu a confissão para esclarecer: “Parece que houve um furto em um veículo, estamos verificando, e logo vamos achar o culpado”. O homem gelou. Seu único crime era a imperícia ao volante; furto, jamais. Porém, certamente, seria um suspeito. Passou, então, a andar paranoico pelo condomínio. Na garagem, encarava desconfiado a figura sombria que parecia fiscalizar tudo, escondida na janela do primeiro andar. O homem foi enlouquecendo. Além do estresse do trabalho, agora também se sentia perseguido em casa. Passou a evitar áreas comuns. Um mês depois, ao sair do elevador, desviou de dois homens que carregavam caixas de mudança, quando o porteiro lhe chamou: “Descobrimos tudo”. O homem suou frio. Na verdade, o porteiro explicou que o morador, que teria sido supostamente furtado, encontrou a carteira embaixo do banco do carro. Aliviado, decidiu então contar sua versão e pediu uma providência quanto ao vizinho desocupado que o acusou injustamente. O porteiro explicou que não havia denúncia. A senhora que morava no primeiro andar faleceu há alguns meses. Era costureira. A sobrinha só conseguiu começar a desocupar o imóvel naquela manhã, pois morava longe. Não havia ninguém no apartamento. O homem caminhou atônito até a rua e avistou o caminhão de mudança aberto. Entre armários, cadeiras, e inúmeras caixas, viu uma máquina de costura Singer antiga, com mesa e pedal. Logo ao lado, com uma expressão irritante e estranhamente viva, um manequim o encarava fixamente. Boa semana!