(Jordana Langella/ AT) Era fim de tarde, e um homem estava agitado no orelhão. De longe, era possível ver que batia os pés, como se reclamasse ao telefone. As pessoas passavam encarando com estranhamento. Aparentemente, ele estava bravo com alguém do outro lado da linha. Enquanto falava, dava tapas na cabine arredondada que protege o velho telefone. Uma senhora com uma sacola de mercado passou ao lado e balbuciou para as pessoas no ponto de ônibus próximo: “Parece que é doido. Para quê fazer esse escândalo no meio da rua? Tudo se resolve com conversa”, disse a idosa. O homem estava transtornado. Seria alguma tragédia? Uma dívida sendo cobrada? A descoberta de algo? O fim de um relacionamento? As pessoas no ponto e na redondeza tentavam adivinhar. Ali perto, uma moça caminhava com uma garotinha. A menina não entendia por que o homem gritava dentro daquela cápsula enigmática – o orelhão. A moça explicava que era um sistema público de telefonia. Afinal, o objetivo do orelhão era fazer ligações, coisa que a menina nem imaginava. Ela ficou surpresa. Possivelmente, devia passar pelo local todos os dias, sem sequer reparar naquela estrutura esquecida. As pessoas desviavam como se fosse um poste ou uma placa qualquer. Não imaginavam uma função. Admirada, a menina falou: “Nossa, que moderno! Nem precisa de celular, então...”. A mãe deu risada. A garotinha olhava a cena de forma que não era possível identificar quem estava ali gritando. Para ela, parecia que o sujeito estava de frente para um túnel, ou conectado a uma outra dimensão. A mãe explicava que havia um telefone com fio lá dentro, e não uma janela para o desconhecido; e se comprometeu a mostrar assim que o homem saísse. Depois de algum tempo, e uma sequência longa de palavrões, o homem enfurecido largou o telefone pendurado pelo fio. Com uma mochila cheia de papéis, saiu em disparada atravessando a rua até virar em uma esquina, desaparecendo de vista. A menina perguntou à mãe se poderia mexer no aparelho. A mãe disse que sim, e elas se aproximaram. A garota pegou o telefone cuidadosamente e o levou em direção ao rosto, examinando o equipamento. A moça interrompeu o movimento, pegou um lenço umedecido da bolsa, esfregou no aparelho, devolvendo logo depois para a menina. “Pronto, pode falar”, disse. A menina observava curiosa os detalhes dos desenhos e mensagens de tempos distantes riscados no interior da cabine circular, como quem descobre uma pintura rupestre na parede de uma caverna. Meio sem jeito, encostou o telefone na orelha, e disse: “Oi?”. Nada. A mãe tentou uma ligação a cobrar para a avó. Pressionou o gancho, discou 9090 e o número. A menina esperou, mas não ouviu nada. A mãe pegou o telefone e verificou algo que ninguém no ponto de ônibus imaginava. O aparelho estava sem linha. Boa semana!