(Divulgação/Vatican News) “Quem será o próximo papa?”, “Quem é a freira que quebrou o protocolo no velório?”, “Médico narra os últimos momentos do papa Francisco”, “Por que vermelho é a cor do luto na morte do papa?”, “Nove momentos que mostram o humor latino do papa”, “Qual papa ficou mais tempo no cargo? Veja ranking dos papados mais longos”, “Relembre embates entre papa Francisco e Donald Trump”, “Qual o salário do papa? Entenda a remuneração do líder da Igreja Católica”, “Instagram do papa Francisco: qual o futuro da conta do pontífice?”. Essas foram algumas das matérias publicadas nos sites de notícias nos últimos dias. A relevância midiática do tema faz todo sentido ao considerarmos que o papa Francisco foi, metaforicamente, o personagem responsável por dar o primeiro passo da Igreja Católica no século 21. Um líder que identificou o caráter simbólico de sua presença e decodificou este sentido para uma linguagem contemporânea. Sob a perspectiva cultural e religiosa, a dimensão estética é essencial. Francisco soube captar a essência de uma hipermodernidade em constante mutação: percebeu os novos arranjos sociais e familiares, denunciou a desigualdade abissal e a crise ambiental, resultantes de um sistema econômico fracassado; se manifestou enfaticamente acerca da tragédia humana no contexto das guerras e conflitos deste período; e, principalmente, entendeu a necessidade de conexão entre as pessoas cada vez mais distantes, em um mundo virtual estruturado por telas. É preciso ir aonde o povo está, como na canção de Milton Nascimento. Já que a fragmentação da textura abstrata das redes sociais é uma dinâmica irreversível, adaptou-se a nova realidade. Transcodificou a mensagem bíblica milenar para a linguagem de Instagram, por meio de suas publicações em vídeos e stories. Cumpriu o difícil papel de comunicar. Sua conta chegou a cerca de 10 milhões de seguidores. Foi pragmático ao identificar o esgotamento de uma dinâmica religiosa mantida em um sistema autorreferencial e fechado. Rompeu e ressignificou a tradição ensimesmada; percebeu que era tempo de agir de dentro para fora. Só assim poderia oferecer a mensagem para os que estivessem distantes - física e espiritualmente. A convergência midiática foi o caminho. A construção do imaginário católico carrega, em essência, uma potencialidade intertextual; a arquitetura religiosa, a arte sacra, a oralidade, além da narrativa textual bíblica, foram estruturas transmidiáticas que consolidaram a representação da fé. Francisco atualizou este storytelling com uma linguagem conectada ao tempo histórico. A abordagem bem-humorada, a coerência na articulação de opiniões e posicionamentos sobre assuntos diversos, a presença durante a pandemia da covid-19 e o diálogo aberto com outras religiões foram algumas das manifestações espontâneas que humanizaram uma figura pop altamente propagável. Nesta última semana, um vídeo produzido por inteligência artificial viralizou nas redes: Francisco é recebido por Jesus e Maria no paraíso, ao som de Knockin’ on Heaven’s Door, de Bob Dylan. Ao que parece, a palavra foi semeada. Boa semana!