Na mesa do escritório, o homem espera o computador iniciar sua rotina. Prazos, relatórios, burocracias de todos os lados. Às vezes, ele se pergunta o que seria do mundo sem processos que organizam outros processos; talvez um lugar melhor, mas, infelizmente, o ser humano parece ser burocrata por natureza. Como se quisesse criar procedimentos para dificultar a possibilidade de vislumbrar a realidade além da papelada. Os computadores foram atualizados na noite anterior, e enquanto esperava carregar, perdia-se em pensamentos. Completara trinta e cinco anos naquela mesma mesa. Conhecia de cor cada ranhura da madeira. Mas ao invés de pensar em trabalho, sonhava com o que gostaria de fazer. Ele retira uma pasta da mochila, a agenda e um caderno. Toma um gole de café com duas gotas de adoçante, no copo plástico, como de costume; e recorda uma noite, em que escrevia poesias. Ele compunha versos e músicas, embora não fosse uma figura repetida nos palcos das redondezas; costumava produzir para si e para quem quisesse ouvir. Se dividia entre o trabalho, durante o dia, e a arte, no resto do tempo. Um sujeito pragmático. Por convicção quase ideológica, fugia da tentação de tocar repetidamente todas as noites, nos mesmos bares, as mesmas músicas, dos mesmos autores - algo que vemos o tempo todo por aí. Sua relação com a música e poesia era verdadeira; afinal, em um mundo apocalíptico, a arte é a única salvação. Assim, construiu seu próprio universo de canções e poemas. Intrincadas tramas sobre suas vidas imaginárias. No caderno sobre a mesa, lia uma anotação para uma música construída sobre dois acordes; em outra página, outra composição com dezenas de modulações. Independente da forma, era possível falar sobre tudo no mundo sensível da canção. Depois do último gole de café, arremessou o copo na lixeira. De relance, olhava para a tela do computador em busca de seu reflexo. Tentava entender, de tempos em tempos, quem era aquele do outro lado do espelho. Ele digita sua senha de acesso. A máquina pede um código enviado pelo celular. Desatento, teclou os números com displicência, enquanto folheava seus rascunhos. Depois de um tempo, a máquina pediu outra verificação. Além de tudo, precisaria provar que era ele mesmo. Uma questão intrigante, pois se nem ele sabia definir ao certo quem era, como a máquina poderia saber? De repente, uma mensagem na tela: "Verificando se você é humano. Isso pode levar alguns segundos...". Parecia um sinal; ele sorri. Alguns segundos são muito tempo, para quem tem tão pouco tempo a perder; e não seria a máquina que comprovaria sua humanidade. O homem se levantou da cadeira, pegou os cadernos com anotações e foi embora sem olhar para trás. De todas as dúvidas existenciais possíveis, esta era a única que máquina nenhuma poderia lhe responder. Afinal, ele sabia que era demasiado humano. Boa semana!