(Reprodução) Na escuridão da noite, alguém grita: “Toca Raul!”. Mas os músicos inventam uma desculpa qualquer para ignorar o pedido. Parece uma decisão objetiva: tocar Raul é sempre um risco. Embora pareça uma execução instrumental simples, a interpretação vocal exige extrema sensibilidade performática. Algo complicado para qualquer sujeito normal. Na infância, lembro de ouvir Gita, em uma coletânea do meu pai. Eu pensava: quem será essa figura? Esta é uma questão que a série Raul Seixas: Eu sou, do Globoplay, tenta responder. A produção conta a trajetória do maior gênio do rock brasileiro. Além de inventar um rock carregado de brasilidade, Raul traduziu questões existenciais, típicas da contracultura, para a linguagem popular. Os versos de Ouro de Tolo, por exemplo, tocam profundamente na classe média alienada. A produção captou a essência do personagem - que personifica o tudo e o nada. Do menino do disco voador ao profeta da sociedade alternativa. A interpretação do ator Ravel Andrade é ótima, principalmente, na conversão do produtor musical em ídolo de multidões. Alguns episódios mesclam a produção de videoclipes com sua exibição na televisão, como Gita e Carimbador Maluco, e é impressionante a semelhança com os originais. A montagem não linear, com saltos temporais, é propositadamente confusa no início, justamente para que possamos entrar na loucura do personagem, e então, passemos a entender sua complexidade. Imersos na perspectiva de Raul, observamos com familiaridade uma sequência de situações surreais. Mais do que contar uma história de forma lógica, a ideia é mostrar o caos que foi a vida do maior rockstar brasileiro. Alheio a qualquer enquadramento ou padrão, Raul é um reflexo anárquico e contraditório de figuras que o influenciaram: uma mistura de Elvis Presley, Lampião e Dom Quixote, hibridizados com estéticas messiânicas por sua riquíssima imaginação. Uma interessante metáfora visual, representada nos episódios finais, ilustra bem estas referências. Um destaque está no seu processo de composição, nas parcerias com Paulo Coelho e Cláudio Roberto. As músicas são conectadas às fases de sua vida. Esses momentos revelam a grandeza da sua capacidade criativa. As cenas de composição de Como Vovó Já Dizia, Meu Amigo Pedro, Gita e Maluco Beleza são um exemplo disso. Para além de julgamentos, a produção cria uma convergência poética entre o gênio criador e o pai e marido problemático. O drama do alcoolismo e a vida errante marcam o personagem, bem como a representação enquanto guru espiritual, e sua posterior negação. Afinal, Raul também era visto como profeta - como se realmente tivesse nascido “há dez mil anos atrás”. A produção mostra um artista que, apesar de ser uma figura emblemática, é praticamente impossível de ser imitado. Raramente vamos ver alguém tocando Raul Seixas de forma convincente por aí. O mérito da série está em reconstruir o início, o fim e o meio de sua imensa dimensão humana. Um maluco beleza. Boa semana! *Matheus Tagé é fotojornalista e doutor em Comunicação.