(Vitrine Filmes/Divulgação) O ano é 1977, uma época cheia de pirraça. Este é um aviso importante na abertura do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. A linguagem sofisticada, estruturada pelo hibridismo de gênero, aproxima a ficção do documental. A não linearidade traciona um ritmo imprevisível e instiga o espectador a completar um quebra-cabeça. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No contexto da ditadura militar, o filme discute a memória como forma de resistência – ou pirraça. A narrativa destaca os tentáculos civis e empresariais que deram sustentação ao regime; um processo histórico cujos efeitos nunca se dissiparam totalmente. Por meio de duas personagens no presente, que pesquisam recortes e registros em jornais e fitas antigas, a produção articula uma atmosfera de suspense ao reconstruir a história do protagonista. Armando, personagem interpretado por Wagner Moura, não é, necessariamente, um opositor do regime. Trata-se de um homem comum querendo fugir do País com o filho por conta de um conflito com um empresário aliado ao governo. O longa retrata os agentes de segurança enquanto personagens cruéis e atrapalhados. O conceito de nacionalismo é ironizado. Ao mesmo tempo em que comemoram o número de mortos em uma manchete, os agentes admiram as cicatrizes de um sobrevivente judeu da Segunda Guerra Mundial que acreditam, equivocadamente, ser um ex-soldado nazista. O tubarão é um elemento polissêmico; além de homenagear a história do cinema, provoca, paradoxalmente, uma crítica sobre a colonização pela indústria cultural. É também a criatura que devora uma perna de um personagem apagado pela repressão. A lenda da perna cabeluda é curiosa. Com origem nos jornais, o realismo mágico dribla a censura propondo uma alegoria para a violência policial. Como o Carnaval, este detalhe reforça a resiliência da cultura popular. Além da atuação de Wagner Moura, cabe destacar a personagem Dona Sebastiana, interpretada pela atriz Tânia Maria. Uma figura complexa que administra um refúgio clandestino. Em uma conversa, ela relata sua vida pregressa, na Itália, quando se envolveu na luta contra o fascismo – um odor que ela reconhece novamente no Brasil. O ótimo elenco confere realismo à trama. A direção de arte é primorosa e a fotografia favorece um estranhamento contínuo. Somos observados o tempo todo: pelos retratos do então presidente Ernesto Geisel, pelas fotografias da sobrinha de Dona Sebastiana, pelos pôsteres de filmes e até por matadores de aluguel. Há momentos sublimes, como a cena em que Armando revela ao sogro, projecionista do cinema, um episódio envolvendo a falecida esposa, a busca por um documento entre milhares de identidades invisíveis na repartição, as cartas do filho e um diálogo final implacável acerca da memória esvaziada. O filme parte do pessoal para alcançar algo universal. Em meio a um ambiente político e social tão conturbado como o atual, o Agente Secreto reafirma que o cinema brasileiro deve ser sempre um espaço de muita pirraça. Boa semana!