Israel disse que o Irã lançou 170 drones, mais de 30 mísseis de cruzeiro e mais de 120 mísseis balísticos (Reprodução/Instagram) Um desenho animado passava na televisão da sala. Com o controle remoto, mudo o canal para um telejornal. Quase meia hora se passou enquanto assistia, assustado, a uma imagem que se repetia incessantemente. Embora fosse possível entender que se tratava de uma mesma cena em vídeo sendo reprisada dezenas de vezes, ainda assim, ao adicionar a cada minuto novas informações, entrevistas e depoimentos de especialistas, a percepção era de que a realidade era tão contínua quanto a cena televisionada. Na imagem, pequenos pontos brancos riscavam o céu escuro de uma cidade distante. Ainda que pareça uma representação bucólica, tal qual uma chuva de estrelas, na verdade, era uma sequência de mísseis. Uma cena de extrema violência. E claro, há que se observar que este tipo de representação, colocada em uma dinâmica de repetição, nos faz atordoar, a princípio; no entanto, sua continuidade provoca uma curiosa anestesia. Ela se normaliza pela reincidência. Nos acostumamos a assistir este tipo de imagem, e ao que parece, quanto mais vemos, menos sentimos. A autora Susan Sontag, no seu livro Diante da Dor dos Outros (2003), apresentava uma perspectiva interessante sobre esta questão. “Ser um espectador de uma calamidade ocorrida em outro país é uma experiência moderna essencial”, dizia. Esta é uma reflexão a se verificar. E ela complementa: “Agora, guerras são também imagens e sons na sala de estar”. A familiaridade com que consumimos este tipo de conteúdo, em especial nos últimos anos, nos impede de constatar que, de fato, o mundo está em ebulição. É fácil delimitar cronologicamente os grandes conflitos da História. Há uma distância temporal que permite observar com precisão epistemológi-ca. O atentado de Sarajevo, que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. A tomada de Berlim pelo Exército Vermelho. O desembarque na Normandia. A terrível bomba atômica lançada no Japão. Eventos que marcaram a Segunda Guerra Mundial. A queda do muro de Berlim, símbolo do fim da Guerra Fria. Porém, no século 21, os conflitos se tornaram multiplataforma: das torres gêmeas a uma sequência de guerras televisionadas. Desde então, a violência entrou em processo de fragmentação e permanência irreversível em todas as telas, o tempo todo. Susan Sontag aponta para uma progressão da violência na cultura massiva: filmes, programas de TV, quadrinhos, jogos de videogame. Assim como Guy Debord argumentava em A Sociedade do Espetáculo (1967), a experiência cotidiana passou a ser mediada por imagens - a realidade se misturou à estética de ficção. Assim, a brutalidade virou entretenimento, não choque. Uma flexibili-zação do sensível. A guerra da Ucrânia, o genocídio em Gaza e o conflito entre Israel e Irã parecem alternativas disponíveis no catálogo do streaming. Guerras sob demanda. O paradoxo está no fato de que enquanto a repetição drena a força das imagens, também reforça uma insólita sensação apocalíptica, a qual estamos estranhamente nos habituando. É melhor mudar de canal. Boa semana!