Lô Borges foi um mensageiro natural, de coisas naturais. Um cavaleiro marginal que se embrenhou na façanha de produzir, ao lado de Milton Nascimento, o maior álbum brasileiro: Clube da Esquina, de 1972 (Divulgação) Enquanto uma progressão inusitada de acordes soa fluida e, curiosamente, ensolarada, uma voz tímida confidencia a paisagem da janela. Lô Borges foi um mensageiro natural, de coisas naturais. Um cavaleiro marginal que se embrenhou na façanha de produzir, ao lado de Milton Nascimento, o maior álbum brasileiro: Clube da Esquina, de 1972. Um projeto que hibridizou influências de Beatles com bossa nova, jazz, fusion, rock progressivo, música erudita e ritmos latino-americanos. Tudo com uma doce textura mineira, carregada de memórias, amores, liberdade e juventude, uma proposta profundamente experimental. No cenário global, a obra se equipara, em nível de importância e inovação, ao álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1967, dos Beatles, ao Pet Sounds, de 1966, dos Beach Boys, e The Dark Side of the Moon, de 1973, do Pink Floyd. Entre as coisas que a gente esquece de dizer e as frases que o vento vem às vezes nos lembrar, Lô Borges criou algumas das estruturas melódicas mais interessantes da música brasileira. Em vez de aplicar a teoria musical à prática, adaptou a melodia em função da poesia, privilegiando a ambiência e a atmosfera sonora. Virou referência para que a teoria tentasse compreender a sua mágica. Quando a musicalidade é a regra, basta contar compasso. Isso fica evidente na canção Trem Azul, em que a melodia cria uma convergência entre a poética da letra e a estética musical – nostálgica como sopro de vento. Um caso de empréstimo modal, em que os acordes de sétima aumentada deslizam – como se nos levassem no trem da canção. Sua destreza harmônica foi reconhecida pelo maestro soberano, Tom Jobim, que gravou a versão em inglês, Blue Train, no álbum Antônio Brasileiro, de 1994. Lô Borges é uma exceção na indústria. Embora tenha construído uma das canções mais bonitas do mundo, Um girassol da Cor do seu Cabelo, não fazia música pela repercussão, fazia porque precisava fazer. O estilo hippie definiu sua sina de poeta errante, um observador da impermanência melancólica da pós-modernidade. O intervalo de sete anos entre o Disco do Tênis, de 1972, e A Via Láctea, de 1979, comprova que preferiu a estrada ao mercado. Recusando a efemeridade da cultura pop, traçou um caminho estritamente artístico. Um anti-popstar. Além de Bituca, as parcerias com Márcio Borges (o seu irmão), Toninho Horta, Beto Guedes e Flávio Venturini valem destaque. Uma curiosidade é que sua discografia no século 21 é maior que a do século 20. Seu ritmo de produção nos últimos anos demonstrava que ainda tinha muito a dizer. O álbum Céu de Giz, deste ano, com Zeca Baleiro, traz um marco premonitório na canção Antes do fim. <FI5>“Antes que o mundo se acabe/No fogo de um vulcão/Eu sigo o rastro do que me diz o coração”. Embarcado no trem de doido, Lô Borges transformou ribeirão em braço de mar. Boa semana! *Matheus Tagé é fotojornalista e doutor em Comunicação.