(Pixabay) Na avenida movimentada, uma jovem faz uma pausa. De uma ecobag, ela saca uma câmera fotográfica pequena e aponta para um prédio cortado em diagonal pela luz solar. Ela espera um ciclista passar no final do feixe de luz e faz um clique. Durante alguns instantes, observa a imagem capturada, conferindo as nuances da composição com atenção. Depois, guarda com cuidado dentro da sacola e vai embora. Um rapaz, outro dia, no metrô, fez o mesmo movimento. Enquanto o vagão estava parado para embarque, pegou uma câmera fotográfica compacta da mochila, apontou através do vidro e fez um único registro de pessoas caminhando na estação. Em seguida, uma breve checagem no visor, e logo guardou o equipamento. Pode parecer um gesto comum, fazer registros do cotidiano; no entanto, me chamou a atenção o tipo de equipamento que utilizavam. Eram câmeras Cyber-shot. Aquelas pequenas máquinas fotográficas digitais que eram populares no começo dos anos 2000, e foram ferramentas fundamentais para a produção de imagens em blogs e fotologs, a realidade da internet no início do século 21. A experiência remete a uma forma de produção de imagens com pouca precisão, de baixa resolução e um mecanismo simples de armazenamento. Diferente das câmeras acopladas nos celulares de hoje, com boa resolução e possibilidade de compartilhamento instantâneo em qualquer rede social, estas câmeras de bolso trabalham de forma lenta. É preciso descarregar o cartão com as imagens em um computador, para então dar sequência a algum destino digital destas fotos. Suspeito, aliás, que essas imagens talvez nem cheguem a ser publicadas em algum lugar. Trata-se de um aparato obsoleto, esquecido em alguma gaveta da casa dos pais ou avós que, de repente, adquiriu um novo valor de uso. Uma ferramenta de construção da memória simbólica e afetiva. A tendência ao retrô já vem há algum tempo por meio do interesse por câmeras analógicas – praticamente um ritual fotográfico. Agora, as câmeras digitais antigas retornaram com contornos estéticos. Parece haver alguma forma de linguagem inusitada. Afinal, a temporalidade destas fotografias reforça o sentido de imagem-documento. O que se choca, evidentemente, com a lógica de efemeridade presente nas redes, em que a fotografia é imagem-fluxo. Me pergunto se, talvez, a saturação de imagens processadas e compartilhadas por celulares tenha trazido certo cansaço a esta nova geração. Curiosamente, os personagens que tenho visto com este equipamento são sempre jovens – a tal geração Z. Pode ser também que busquem alguma atmosfera de nostalgia nas imagens produzidas por câmeras antigas. Se revisitarmos fotos de família, feitas com Cyber-shots, veremos que muitas carregam datas registradas na superfície. Uma estética rupestre, um índice de um tempo que não existe mais, mas que resiste na dimensão abstrata dos álbuns de fotografias. Parece que os jovens buscam desaceleração em meio à impermanência. Um respiro dentro de uma fração de segundos. Imagens. Boa semana!