(Freepik) Chovia incessantemente. Era noite, e as luzes dos postes elétricos recortavam sombras tortas no chão da calçada. O farol de um carro cortava a escuridão. Deslizando no asfalto escorregadio, um motorista tentava controlar o veículo acelerado, tal qual um peão controla um touro. No fim da rua, havia um animal. Um cachorro pequeno, ou um gato, talvez. Não dava para definir com a textura opaca da chuva, e a pouca incidência de luminosidade. O motorista parecia não conseguir frear. Afinal, vindo em alta velocidade, a tendência seria o carro patinar; e uma derrapagem, naquele cenário, poderia ser trágica. A fim de evitar um acidente, o homem vinha buzinando e jogando farol alto na direção do pequeno animal. Mas o bicho não esboçava reação. Por algum motivo, estava paralisado. Como se desejasse encarar o destino de frente. Intrepidamente, o animal não movia nenhum milímetro. Nem a chuva, o vento, ou mesmo o choque inevitável de um veículo descontrolado indo a seu encontro, poderiam lhe fazer arredar o pé. Talvez fosse uma fé profunda na sorte, ou mesmo uma convicção de que, em algum milésimo de segundo, seu olhar fixo sobre o veículo desgovernado poderia congelar o movimento ou desviar a trajetória. Coragem. O motorista, visivelmente desesperado, aumentava a cadência da buzina, e tentava reduzir a marcha. O olhar do animal era profundamente penetrante. Ao forçar a redução, o carro engasgou, e por um reflexo instintivo na dinâmica automotiva, ele pisou no freio. Agora, não havia mais nenhum controle. O bicho permanecia imóvel, e o carro passou a derrapar, com as rodas travadas, em direção ao animal. Na tempestade, era impossível qualquer alternativa. Pelo barulho da buzina, a vizinhança toda foi para a janela. De um prédio, uma senhora gritava: “Cuidado com o cachorro!”. Mas era tarde. O motorista perdera totalmente a capacidade de controlar o veículo. Agora era a máquina, símbolo da civilização fordista, contra o animal, em toda sua pureza de espírito. Em frente ao derradeiro destino, enfrentaria a morte com valentia, de olhos abertos. O carro passou com tudo por cima do bichinho. E só foi parar meia quadra depois. Um suspiro irrompeu no ar, seguido de um instante de silêncio. O motorista desceu do carro e caminhou em direção ao corpo estendido no chão. De repente, alguém gritou de uma janela: “Assassino!”. Aos poucos, todos os moradores da redondeza estavam xingando o homem. Assustado, correu para o carro e foi embora. Outro veículo virava a esquina. Com cuidado, desviou do corpo, estacionando mais à frente. Uma menina e o pai desceram de guarda-chuva para ver a situação. “É de pelúcia, pai”, atestou a menina. “Mas deve ser de alguém”, respondeu o pai. Eles pegaram o bichinho e colocaram na calçada, sob a cobertura de uma laje. Entraram no carro e seguiram caminho. Coragem recompensada. Haveria uma segunda chance. Boa semana!