A contratação de Lucas Paquetá pelo Flamengo assustou o mercado brasileiro e expôs uma realidade crua: o futebol brasileiro (e mundial) está inflacionado e a ameaça de colapso é muito grande. Sem dúvida, a gestão do clube carioca é referência nos últimos anos, acumula títulos e com frequência fortalece o time com grandes reforços. Porém, a questão maior são as consequências para o esporte em geral. É licito imaginar que, se o Flamengo gastou, é porque tem capacidade financeira e recursos em caixa, mas é inegável que o valor da contratação de Lucas Paquetá é absurdo e irreal. A ótica é até certa: não é despesa, é investimento, que inegavelmente trará retorno. Talvez, entretanto, não faça grande diferença. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas há limite para ousadia, até para preservar o próprio clube e principalmente o ambiente no elenco. Oficialmente, o Flamengo pagou (ou pagará em suaves prestações – fala-se em 18 meses) 42 milhões de euros, aproximadamente R\$ 260 milhões. É a maior transação da história do futebol brasileiro. De pronto: Paquetá vale isso, tem status para um investimento tão alto? Não, é claro, segundo vários especialistas do futebol, entre eles o gênio Romário. É somente um bom jogador, nada além. Tem qualidades técnicas e agora experiência internacional. Contudo, está longe de ser um craque literalmente acima da média. Basta compará-lo com jogadores que por uma vida atuaram na mesma posição e foram destaques no Brasil e pelo mundo. Eis alguns deles: Kaká, Djalminha, Sócrates, Rivelino, Pita e até Ailton Lira, que infelizmente nunca teve seu valor reconhecido. Na história, vale lembrar Gerson, do Botafogo, São Paulo e, principalmente, seleção brasileira. Na Inglaterra, Paquetá até que teve bons momentos, chegou a ser cogitado pelo Manchester City, do genial treinador Pep Guardiola, porém, por problemas extracampo, com acusações sérias de apostas e manipulação de resultados, o negócio não evoluiu. Depois de anos de investigações, acabou absolvido, arcando apenas com sérios prejuízos em relação à imagem profissional. Isso inegavelmente jamais será superado. Depois de Paquetá, as duas maiores transações foram os retornos de Vitor Roque, adquirido pelo Palmeiras junto ao Barcelona por R\$ 159 milhões, e Gerson, comprado pelo Cruzeiro ao Zenit, da Rússia, por R\$ 169 milhões. O atacante do Palmeiras, principalmente pela idade, apenas 21 anos, é o tipo do “bom negócio”, pelo que pode oferecer de imediato e eventualmente numa negociação futura com a Europa. A diferença entre eles é o reforço do time de clube carioca é de mais de R\$ 100 milhões. Ao decidir voltar ao Brasil, deixando de lado a mais forte e importante liga do futebol mundial, com certeza Lucas Paquetá pensou também na seleção brasileira e na possibilidade de jogar a próxima Copa do Mundo, que será disputada a partir de junho nos Estados Unidos, México e Canadá. Seu agora ex-time na Premier League, o West Ham, está caindo pela tabela, correndo sério risco de rebaixamento. Nada garante que ele será convocado e, se for, dificilmente será titular, comprovando seu nível de apenas um jogador um pouco acima da grande média. No meio campo, além de Casemiro, absoluto e homem de confiança de Carlo Ancelotti, muitas são as opções para o chamado terceiro homem do setor, entre eles Neymar, que após a recente artroscopia tem tudo para voltar e liderar o time nacional. O novo reforço do Flamengo não tem característica de marcação, é muito mais um armador, com foco ofensivo e de criação. Assim, só lhe cabe disputar tal posição, embora o futebol atual exija pelo menos dois atletas combativos no setor para garantir segurança defensiva. No contexto geral, o retorno de Paquetá pelos valores pactuados tem impacto também na folha salarial dos clubes, um dos grandes problemas da maioria das gestões do futebol Brasileiro. É claro que a ninguém cabe impor valor a esse ou aquele atleta, pois a negociação é livre e aceita quem quer. Porém, nas grandes agremiações, qualquer contrato hoje é próximo ou superior a R\$ 1 milhão. E o retorno em campo na maioria das vezes não corresponde. Com o início efetivo do processo de fair play financeiro no Brasil, espera-se que prevaleçam a realidade e bom-senso, sob pena de consequên-cias imprevisíveis.