(Divulgação/FRF) A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) inicia hoje uma nova fase, com a eleição, ou aclamação, de mais um presidente, o desconhecido Samir Xaud, de Roraima. Na prática, muda apenas o dirigente máximo, pois o sistema continua o mesmo e permanece a grande maioria do grupo que há muito literalmente domina a instituição. A última eleição com disputa teoricamente democrática ocorreu em 1989, quando dois candidatos pleitearam o cargo: Ricardo Teixeira, do Rio de Janeiro, e Nabi Abi Chedid, de São Paulo. A velha disputa entre os dois estados e novamente prevaleceu o domínio carioca. Teixeira vive hoje um “exílio” obrigatório no Brasil. Se deixar o País, pode ser imediatamente preso, seu nome está na lista vermelha da Interpol por corrupção. Depois, vieram José Maria Marin, que cumpriu prisão nos Estados Unidos, Marco Polo Del Nero, Antônio Carlos Nunes. Rogério Caboclo e Ednaldo Rodrigues. Este último assumiu em 2021 e deveria ficar até 2025. Comandou, porém, dois “golpes estatutários” e conseguiu mandato até 2030 e com direita reeleição. Terminou ejetado do cargo, após dois afastamentos por ordem da Justiça, e hoje é apenas mais um nos bastidores. Em tese, perdeu apenas o poder público, pois consta que continua articulando e é um dos responsáveis pela criação de Xaud. O novo presidente assume em meio a dúvidas quanto à conduta pessoal e pública. Foi secretário-adjunto de Saúde em Roraima e consta desde omissões a acobertamento de funcionários fantasmas na sua pasta. Prometeu apurar e deixou o cargo antes de qualquer apuração. Em síntese, a vida pregressa é no mínimo obscura. Inicialmente, o grupo que o tirou da cartola, com 25 federações e 10 clubes, avaliou três nomes, mas optou por Xaud para tentar passar uma imagem de renovação. Felizmente, Xaud não é uma unanimidade, o que é extremamente positivo. Ele assume sem o apoio de 25 clubes, muitos dos quais grandes do futebol brasileiro, e duas federações, uma delas a de São Paulo, uma das mais fortes do Brasil. Entre as agremiações estão Santos, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Corinthians, Internacional, Botafogo e Cruzeiro. Apenas o Palmeiras não se integrou ao movimento, optando por apoiar Xaud. O mote principal do boicote é “Sem clube não tem futebol”. Impossível contestar. As agremiações são a base do esporte e a razão da existência das federações. Esse quadro, sem dúvida, dá pouca esperança de uma grande mudança do futebol brasileiro, apesar dos muitos indícios de que há muito se impõe uma nova filosofia de gestão. No mínimo, Samir Xaud será eleito hoje com uma forte e grande oposição. Se não se dispuser a ouvir esse grupo e efetivamente sinalizar com modernização do sistema eleitoral, corre o risco de fracassar num prazo muito curto. Se, por exemplo, os signatários do boicote partirem para a criação de uma nova liga, sonho de muitos, a CBF perderá força e poder. No manifesto de boicote, os clubes são claros, indicando a necessidade de o futebol brasileiro ser pautado pela democracia, transparência e representatividade. Numa postura correta, não afastam a possibilidade de conversar já a partir desta semana para debater alterações do processo eleitoral e outras demandas importantes. Em meio a todo esse contexto, hoje à noite desembarca no Brasil o novo treinador da seleção, Carlo Ancelotti. No mínimo, preocupado e inseguro com tudo que envolve a CBF. O treinador foi contratado a peso de ouro por Ednaldo Rodrigues e agora se depara com um dirigente que nunca viu ou ouviu falar. Uma situação até constrangedora e de futuro imprevisível. Amanhã, em meio a tanta turbulência, o técnico anuncia a relação dos jogadores para a disputa de mais dois jogos pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. No momento, o Brasil é apenas o 4o colocado, com 21 pontos, e enfrentará em junho Equador e Paraguai. O ideal é vencer as duas partidas para garantir matematicamente a classificação. Nessa primeira convocação, Ancelotti deve apresentar surpresas. Mesmo sendo italiano, acompanha como poucos o futebol mundial. Neymar deve ser convocado, quem sabe liderando essa nova etapa da seleção brasileira, com paz pelo menos no campo.