(Rodrigo Ferreira/CBF) A regra do impedimento, uma das mais importantes do futebol, continua causando polêmica. Com a chegada do VAR, imaginou-se que o problema do gol em posição irregular estaria definitivamente resolvido. Ledo engano. Apesar de toda tecnologia, essa questão continua na ordem do dia. Não por culpa da tecnologia, mas principalmente por suas regras, rígidas ao extremo e até injustas. A aplicação do VAR, sem dúvida, tem evoluído. No início, o acesso às análises era restrito aos assistentes nas cabines, gerando dúvidas e desconfianças. Aos poucos, o trabalho foi democratizado, com projeção nos telões para acompanhamento por jogadores e torcedores, algo positivo e que garante transparência. Contudo, isso não eliminou a polêmica, principalmente nos lances decididos milimetricamente. Um simples pé adiantado, indicado pelas linhas traçadas pelo VAR, é suficiente para anulação de um gol ou um lance mais agudo. A decisão final é sempre do árbitro de campo e invariavelmente causa desde revolta até uma explosão de alegria. Um bom exemplo ocorreu no clássico entre Corinthians e Palmeiras, quarta-feira, na Neo Química Arena, pela Copa do Brasil. Memphis fez 1 a 0 e, logo depois, Maurício, num lindo chute de voleio, empatou. Todo lance tem que ser revisado, independentemente de dúvida, a regra é clara, como sempre diz o ex-árbitro Arnaldo César Coelho. Na revisão, foi constatado que o antebraço do zagueiro Gustavo Gomez, que deu assistência de cabeça para o atacante, estava na frente do zagueiro adversário, caracterizando o impedimento. Gol anulado e revolta geral dos palmeirenses, em especial do técnico Abel Ferreira, que disse mais uma vez que o Brasil está trabalhando tecnologicamente com ferramentas do século passado. “Nós estamos no século 21”, disparou o treinador, sempre incisivo nas suas declarações. Muitos outros lances foram decididos milimetricamente, provocando as reações mais absurdas. Apesar da rigidez da regra, tem que haver também um mínimo de bom senso. Não é o ideal a anulação de um lance em razão de um antebraço ou até mesmo a ponta de uma chuteira. Por tudo isso, felizmente, ainda que com atraso, a Fifa iniciou testes para implantar uma nova regra de impedimento, visando privilegiar o ataque e ampliar a ocorrência de gols. A mudança principal é que o posicionamento irregular só seja marcado quando o atacante estiver como todo o corpo à frente do defensor, e não mais se qualquer parte do corpo estiver adiantada. A alteração tem por objetivo também reduzir o número de impedimentos durante uma partida e facilitar a identificação por parte dos árbitros e auxiliares. O autor da proposta de mudança é Arsène Wenger, chefe de Desenvolvimento Global de Futebol da Fifa. Mesmo sem sua implementação, já ganhou um apelido: “regra da luz do dia”. A nova regra, segundo a própria entidade maior do futebol, já foi testada em jogos de divisões inferiores da Suécia, Itália e Holanda, com resultados positivos. A estratégia agora é expandir a experiência a outras categorias e níveis de futebol. Com certeza, se implementada, ela provocará também importantes mudanças táticas, principalmente no posicionamento dos defensores, que terão de atuar mais recuados. A colaboração do VAR será mais relativa. A expectativa é que a mudança torne o jogo mais dinâmico e com mais gols, ampliando a emoção no futebol. Como os testes foram aprovados, a alteração será apresentada agora à International Football Association Board (IFAB), que controla as regras do esporte no mundo. Segundo um jornal britânico, se aprovada, será a maior mudança de regra no impedimento em 30 anos, provocando “uma alteração radical no futebol”. Ainda não há um prazo para a IFAB avaliar o tema e, eventualmente, aprovar a mudança. Porém, o simples fato da Fifa se dispor a avaliar a alteração é um bom sinal. A entidade é conhecida por ser conservadora e resistente a revoluções, independentemente do porte. Contudo, é impossível aceitar que um antebraço anule um gol lindo como o de Maurício, do Palmeiras. Marcio Calves. marciocalves@ymail.com.