[[legacy_image_290318]] A saída do Santos, há muitos anos, foi traumática, obscura e até hoje provoca dúvidas, principalmente em torno dos bastidores da negociação. Do Barcelona, seu “sonho de criança”, não foi diferente, teve até semelhanças com muito do que ocorreu quando se despediu da Vila Belmiro. A transferência para o Paris Saint-Germain tinha como foco maior a busca por um protagonismo único, sem sombras como a do amigo Lionel Messi, grande ídolo do time catalão, com um histórico desde a infância. Neymar chegou à capital francesa também pensando no maior objetivo de sua carreira, o título de melhor jogador do mundo, como Messi e Cristiano Ronaldo muitas vezes conseguiram. Carregava também uma clara obrigação: levar o PSG à conquista da Liga dos Campeões da Europa, uma obsessão do clube e de seu milionário dono. Não conseguiu nem uma coisa nem outra. E novamente foi alvo de protestos por parte das torcidas organizadas, além de sofrer as mais variadas ameaças. Tinha contrato até 2024, por direito exerceu a opção de uma renovação automática até 2027, garantindo ganhos fantásticos. Desde que chegou ao PSG, na prática, só ganhou campeonatos nacionais - quase uma obrigação pelo poderio financeiro de seu presidente. Viveu também sérias contusões, com performances bem abaixo do esperado. Não pode ser responsabilizado pelas lesões, é óbvio, mas seus longos afastamentos comprometeram sua missão no PSG. Por tudo isso ficou claro, ao final da última temporada, que a equipe não o queria mais, dando margem a uma grande especulação sobre seu destino. Assim como ocorreu no Santos e Barcelona, de repente comunicou ao clube que não queria mais continuar na França, mesmo estando sob contrato milionário. Esse quadro revelou um fato importante: a rejeição dos grandes centros, como Inglaterra, Espanha e Itália, mesmo sendo um craque, um jogador diferenciado, pelo menos um dos dez melhores do mundo. Nem times dos Estados Unidos, que levaram Messi e outros, tentaram contratá-lo. E ainda sofreu críticas de um dos dirigentes da MLS, a liga norte-americana, ao dizer que pretende ainda jogar na América por ter um campeonato que dura pouco mais de três meses e permite grande período de férias. A resposta foi imediata, no sentido de que futebol dos EUA não é local para aposentadoria bem remunerada. Sem dúvida, no cenário mundial, pesaram vários fatores: valor da transação, histórico de lesões, comportamento extracampo sempre cercado de polêmicas, extravagâncias e ostentação, individualismo no elenco e incerteza em torno do seu real comprometimento com o futebol. Assim, só sobrou mesmo a Arábia Saudita, com o Al-Hilal e seu príncipe Alwaleed bin Talal, dono de uma fortuna de mais de US\$ 74 bilhões. Neymar desembarcou sexta-feira, depois de uma carona no avião do soberano, avaliado em US\$ 1 bilhão, e foi apresentado ontem. Ele precisa saber que se trata de um Estado que gira em torno de uma monarquia absoluta. As leis são rigorosas, não cabendo comportamentos fora dos rígidos padrões. Quem ousa desafiar o sistema tem punição exemplar. Seu contrato de dois anos é milionário, garantindo quase um R\$ 1 milhão por dia. Neymar, na prática, fez opção por um projeto financeiro, pensando também além dos 24 meses. Quando terminar, terá 33 anos e estará livre para definir seu futuro, bem próximo da Copa do Mundo de 2026, que ocorrerá nos Estados Unidos, Canadá e México. Em meio às muitas entrevistas, ao justificar sua opção pelo mundo árabe, disse que sempre sonhou em “ser uma atleta global”, talvez se referindo ao fato de agora ter se transferido para um país do Oriente Médio. Surgiu na América do Sul, passou pela Europa e agora foi para mundo árabe. Apesar do contrato robusto e toda a badalação, na verdade, em termos de futebol, ele caiu de nível. Os próximos dois anos poderão provocar sérias consequências no seu final da carreira. Na sexta-feira, foi convocado para a seleção brasileira, agora comandada por Fernando Diniz. Uma convocação passível de contestação, afinal, Neymar vem de mais uma grave contusão e há meses não joga uma partida oficial. Até pela renovação indicada na lista anunciada pelo treinador, bem que poderia ter ficado de fora. Com certeza, pesaram o nome e o passado. Mas o futuro, em termos de futebol, é uma séria dúvida. Do ponto de vista pessoal, nenhuma preocupação, tanto poderá ficar na mansão em Mangaratiba, com seu lago artificial construído irregularmente, como no quadriplex em Santa Catarina. Nada, entretanto, apagará suas frustrações como jogador de futebol.