(Carlos Marques/Arquivo AT) Aos 69 anos, o ex-jogador e agora fazendeiro Rodolfo Rodríguez, um dos maiores goleiros do mundo e da história do Santos, voltou à Vila Belmiro. O uruguaio esteve no Brasil a convite do Grupo Globo para lembrar um dos maiores momentos de sua carreira e do futebol mundial: uma sequência de quatro incríveis defesas contra o América, de São José do Rio Preto, pelo Campeonato Paulista de 1984. No ano passado, o lance completou 40 anos e em breve será tema de uma grande matéria no programa Esporte Espetacular. Alguns garantem que foram cinco defesas, mas, na verdade, o último chute bateu na trave. Porém, Rodolfo Rodríguez pulou no canto e, se o chute fosse para o gol, provavelmente ele defenderia. Foi um lance que valeu uma placa na Vila Belmiro e com frequência é lembrado e reproduzido em programas de rádio e televisão. Está definitivamente na história, assim como, por exemplo, a defesa do goleiro Gordon Banks numa cabeçada de Pelé na Copa do Mundo de 1970 ou, na mesma competição, o drible “sem tocar na bola” do Rei do Futebol em Ladislao Mazurkiewicz Iglesias. O gol não saiu por centímetros, mas ninguém esquece. A defesa do inglês é conhecida como a maior da história do futebol, mas muitos garantem que o feito de Rodolfo Rodríguez foi mais espetacular. As defesas do então arqueiro santista renderam placa na Vila, ao lado de várias outras registrando grandes momentos do estádio. O goleiro teve a oportunidade de rever a homenagem na parede, visitou o vestiário, o gramado e, principalmente, o gol onde realizou os “quatro milagres”. Também circulou pelo Memorial das Conquistas, onde alguns de seus materiais de jogo, como luvas, short e meias, estão expostas em uma vitrine particular. Viu novamente um grande painel registrando um time com jogadores de diferentes períodos. No gol, é claro, ele mesmo. Durante a visita, uma surpresa: a presença de Paulo Robson, com quem jogou durante muito tempo. A chegada do lateral, com seu estilo permanentemente alegre e irreverente, animou ainda mais o clima de nostalgia, lembrando viagens, jogos, momentos e histórias de um time que encantou o Brasil. Algumas delas nunca foram reveladas, são instantes pessoais do elenco da época. Eles lembraram, por exemplo, de viagens ao Japão, onde o Santos conquistou a Copa Kirin, à França e até a Jacarta, na Indonésia. A passagem por este último país causou polêmica, por divergirem sobre um episódio inédito envolvendo dois colegas do elenco. Robson insistia que tinha ocorrido em outra cidade, na Europa, enquanto o goleiro e um terceiro participante da viagem garantiam que ela efetivamente teve como palco o continente asiático. A dúvida foi desfeita logo depois, quando Paulo Robson questionou um colega por telefone e a realidade prevaleceu. Era um hotel de alto luxo, com tudo à disposição, mas dois companheiros de quarto decidiram preparar uma feijoada em lata, carregada na mala desde o Brasil, preparando um pequeno fogo dentro da cuba do lindo banheiro. Quando a temperatura subiu, ouviu-se um estrondo e a rachadura foi inevitável na linda pia de mármore de carrara. Um acordo com o gerente resolveu o problema, evitando desdobramentos e até a presença da polícia. O centroavante Serginho Chulapa, outro amigo e companheiro de time, também deveria recepcionar Rodolfo Rodríguez, mas um previsto impediu o reencontro. As defesas de Rodolfo continuaram sendo o assunto principal, com direito a uma reprodução ininterrupta nos telões da Vila Belmiro. O agora fazendeiro, pai de três filhos e marido de uma médica se emocionou várias vezes durante a visita e destacou o orgulho ao relembrar o que considera um dos maiores momentos de sua carreira. Com simplicidade, disse que fez o que era possível, saltando sucessivamente para evitar o gol. Num dos lances, fraturou um dos dedos da mão, mas nem assim deixou o jogo ou deu oportunidade para o reserva Nilton atuar na partida seguinte. Ao ser questionado sobre jogar com o dedo fraturado e imobilizado com uma pequena tala, disse humildemente que não podia dar chance ao seu reserva. “O Nilton era muito bom, qualquer descuido poderia custar a minha titularidade”. Em duas palavras, resumiu o lance das quatro defesas e a oportunidade de ter feito história no Santos: “Muito orgulho”.