(Rafael Ribeiro/CBF) O script foi o de sempre: críticas, contestações, interesses e, principalmente, derrota humilhante. O resultado foi natural, seguindo o roteiro tradicional: demissão, agradecimentos e votos de sucesso na sequência da carreira. Agora foi Dorival Júnior, antes foram Tite, Ramon Menezes e Fernando Diniz. O vexame de Buenos Aires, sem dúvida, não passaria impune pela goleada, pelo nível de atuação e por tudo que ocorreu antes, durante e depois da partida. A queda do treinador da seleção brasileira teve grande repercussão no mundo do futebol, quase todos os jornais e sites da Europa abriram suas edições com grandes manchetes. O jornal AS, da Espanha, foi muito feliz: “Brasil fulmina a Dorival Júnior”. Texto incontestável, pois em três dias, período entre a derrota e a reunião, Dorival Júnior foi literalmente aniquilado, sem dó, piedade ou respeito. Não surpreende, é uma questão cultural, própria do Brasil. Simples assim: fracas apresentações, campanha irregular, críticas, pressões de torcedores e falas de corneteiros e jornalistas são iguais a uma demissão sumária. Antes mesmo do início da última Data Fifa, já se sabia que Dorival Júnior estava em xeque, como num jogo de xadrez. A única saída era vencer os jogos contra a Colômbia e Argentina e ganhar uma sobrevida. Muito difícil, convenhamos, mas sonhar ainda é permitido. Na primeira partida, o alívio veio com o gol salvador de Vinicius Júnior, nos acréscimos e numa jogada puramente individual. A apresentação, contudo, foi fraca, mantendo o clima de insatisfação. Contra a temível Argentina, em Buenos Aires, o pré-jogo foi lamentável, a partir de uma entrevista de Raphinha ao grande craque Romário. O atacante do Barcelona foi provocado e literalmente, de forma irresponsável, disse que no clássico contra os hermanos teria “porrada dentro e fora do campo”. Era o que faltava para elevar ainda mais o clima do jogo e acirrar os ânimos. Inegavelmente, um comentário inútil e prejudicial para o ambiente do confronto. O ideal seria que Raphinha fosse imediatamente cortado do grupo, como punição e para sinalizar aos adversários que o Brasil não comungava de tal pensamento. Obviamente, não houve nenhuma ação do comando técnico da seleção (entenda-se Dorival Júnior) ou da própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF), por intermédio do diretor de seleções, Rodrigo Caetano. O resultado final: Argentina 4 x 1 Brasil. E não foi mais porque os campeões mundiais se acomodaram, optando por humilhar a seleção brasileira até com o tradicional “olé”. Raphinha foi um dos piores em campo, não jogou absolutamente nada e ainda apanhou fisicamente em vários lances. Que se faça justiça: à exceção de Matheus Cunha, que fez um gol numa grande falha de Romero, todos fracassaram. Alguns até temeram que o Brasil levasse um novo 7 a 1, como ocorreu na semifinal da Copa do Mundo de 2014, contra a Alemanha, em pleno Mineirão. Esse foi incontestavelmente o maior vexame do time brasileiro. Dorival Júnior, seu filho e assistente e o preparador físico não sairão de mão abanando, pois vão receber salários até dezembro de 2026, quando oficialmente os contratos serão encerrados. Pelo visto, não houve nenhuma negociação, fica como compensação à sumária demissão. Com Dorival fulminado, a missão agora é definir um treinador para iniciar um novo trabalho, a pouco mais de um ano da Copa de 2026. O presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, ressuscitou o sonho de contratar o italiano Carlo Ancelotti, atualmente no Real Madrid. O treinador, em entrevista na sexta-feira, disse que tem contrato até julho de 2026 e possui como meta imediata conquistar o Mundial de clubes que será disputado em junho e julho. Dessa forma, mantendo pelo menos o sonho de contratar um técnico estrangeiro, o dirigente avalia Jorge Jesus, atualmente no mundo árabe, e Abel Ferreira, há mais de quatro anos no Palmeiras. Dois portugueses com bom currículo e falando um idioma de fácil compreensão. Abel tem a seu favor a longa convivência com o futebol brasileiro e muita competência e liderança. Ednaldo, porém, precisaria convencer Leila Pereira, presidente do Palmeiras, a garantir que ele não será apenas mais um na seleção brasileira. Missão difícil. Assim, no front, talvez a única opção seja Jesus, que já acenou com a possibilidade de abandonar o Al-Hilal, sem nenhum constrangimento, e fatalmente voltar ao Brasil também para reencontrar Neymar, seu último desafeto. Um ou outro, ou até mesmo Felipe Luis, atualmente no Flamengo, já passou da hora de se iniciar um trabalho sério e objetivo. É o mínimo. Sem isso, na Copa do Mundo, novamente o Brasil será uma grande decepção.