(Ricardo Saibun/ Santos FC) Muricy Ramalho, que se desligou oficialmente do São Paulo, por clara insatisfação com a crise ética que envolve o clube, com sua sinceridade e espontaneidade, ao seu estilo, criou frases que se inseriram na cultura do futebol. Uma delas, talvez a mais famosa, foi a seguinte: “A bola pune”, numa alusão de que a falta de atenção em campo é sempre fatal e que um resultado positivo em instantes pode se transformar numa derrota. Muricy fez carreira como jogador, técnico e mais recentemente como dirigente. Sempre foi um profissional diferenciado também por seu caráter e respeito a compromissos. Um dia ousou até descartar um convite para assumir a seleção brasileira porque o Fluminense, que o tinha sob contrato, descumpriu a palavra em liberá-lo e também por divergências com a própria CBF. Ao invés de romper, respeitou o acordo firmado. Fato raro, convenhamos! Segundo ele, seu pai ensinou que a palavra é superimportante. A sua frase mais famosa, na prática, vai além do campo e envolve também a gestão de clube. Os exemplos pelo Brasil são muitos e envolvem estados como São Paulo, Ceará e Pernambuco, este último, um quadro extremamente negativo. Houve um tempo em que o território paulista tinha cinco grandes clubes e duas ‘sombras’ querendo se inserir no seleto grupo, no caso, Guarani e Ponte Preta. O Bugre chegou a ser campeão brasileiro sob o comando de Carlos Alberto Silva, em 1978, com craques como Careca, Zenon e Renato, além de destaques como Neneca, Capitão e Gomes. O Guarani hoje agoniza na Série C e o grande rival, a Ponte Preta, somente agora conseguiu acesso para a B. O pior é o quadro de Pernambuco, que durante anos tinha um trio que assustava até os grandes do Brasil: Náutico, Santa Cruz e Sport. O Santa Cruz conseguiu em 2025 o acesso para a Série C, como resultado de um processo de transformação em SAF, com a venda de 90% das ações para um grupo investidor. O Náutico, por sua vez, está na Série B. A última vez em que esteve na elite do futebol nacional foi em 1999, quando garantiu o acesso. Por fim, o Sport, que em 2025 caiu novamente para a chamada segunda divisão, ou grupo B. Por ironia, seu símbolo maior é o Leão e tem uma das mais fanáticas torcidas do Nordeste. O estado do Ceará também está na rota do declínio: os dois grandes da capital vão disputar a Série B em 2026. O Ceará já estava e, para surpresa geral, o Fortaleza e sua SAF foram rebaixados. Esst último foi uma grande surpresa, pelo trabalho dos últimos anos, e os sinais de que, gradativamente, se inseria na elite do futebol nacional, mudando o status de mais um time do Nordeste. Sem dúvida, a razão maior de tantos insucessos é a linha de gestão e os erros primários. Sem profissionalismo em todos os setores e atores competentes, o quadro tende a se agravar. A situação da Ponte Preta é, no momento, o retrato do caos. Em 2025, conquistou o titulo da Série C, garantindo o acesso para a B, mas agora corre o risco de ser rebaixada para a segunda divisão do futebol de São Paulo. Esse momento ruim no campeonato passa por uma situação extracampo. Endividado e sem a mínima liquidez, ao longo dos últimos meses conviveu com dois transfer bans, punição imposta pela Fifa que impede qualquer negociação, ao não honrar compromissos financeiros. Os débitos, no valor de quase R\$ 3 milhões, ridículos no meio do futebol, foram quitados no final da semana. As consequências, porém, foram graves: a Ponte Preta não conseguiu registar seus reforços para o Paulistão e está utilizando um time sub-20, que estava disputando a Copa São Paulo. E mais: seis atletas recém-contratados não esperaram a solução do caso e literalmente abandonaram o clube. Um deles até ingressou na Justiça para cobrar salários atrasados. Nem mesmo um forte apelo do técnico Marcelo Fernandes conseguiu convencer o grupo a permanecer. Sua história, a exemplo do Guarani e os demais, é rica, com conquistas importantes, tais como os terceiros lugares no Brasileiro de 1981 e na Copa do Brasil de 2001, e os sete vice-campeonatos paulistas. Todos esses exemplos indicam claramente que não cabe mais gestão amadora no futebol. São sinais de alerta. Quem não evoluir, com certeza ficará no meio do caminho da história.