(Vitor Silva/ Botafogo) Sem inicialmente entrar no mérito, foi muito importante propor o debate entre a utilização de gramado natural, híbrido ou sintético. Interessante também que a iniciativa partiu dos jogadores, que normalmente não se posicionam sobre temas relevantes, esportivos e principalmente políticos. O silêncio em torno da política é até compreensível, pelo radicalismo que ultimamente tem dominado o setor. Vale lembrar que mesmo em outros tempos a grande maioria se omitiu, raros foram os que publicamente tomaram posição em favor deste ou daquele candidato ou em torno de um tema mais polêmico. Na história do futebol poucos exerceram uma militância além do esporte, os mais importantes foram Sócrates, Wladimir e Casagrande, no contexto da chamada Democracia Corintiana. Mas teve oposição interna, no próprio elenco, liderada pelo grande goleiro Emerson Leão. Na história, o primeiro grande símbolo foi Afonsinho, que jogou no Botafogo e no Santos e se insurgiu contra a então Lei do Passe. Lutou e venceu, abrindo caminho para outras mudanças e até a alteração radical da relação entre clube e jogador. De pronto, vale destacar o post conjunto, contra o gramado sintético, de jogadores como Neymar, Lucas Moura, Thiago Silva, Philippe Coutinho, Gabigol, Cássio, Alan Patrick e Calleri, todos líderes em seus respectivos clubes. O primeiro movimento foi de Lucas Moura, que conversou com o ídolo santista e gradativamente ampliou a rede de contatos. O atleta tricolor foi muito feliz na primeira argumentação: “Nosso ponto é técnico, jogar no gramado sintético e no gramado natural é totalmente diferente”. Acrescentou que, apesar da alta tecnologia, o piso artificial jamais será igual ao original. O atleta fez questão de ressaltar que não refletiu sequer sobre o risco de contusão, que preocupa muitos profissionais. Lucas tem razão, o gramado natural está na essência do futebol. A solução, pelo menos nas séries A e B, é investir muito na manutenção e garantir ótimas condições. Até porque também existem pisos sintéticos de baixa qualidade. No ano passado, o próprio Palmeiras se recusou a jogar em seu estádio, exigindo da parceira a troca completa. No Brasil, considerando os principais clubes das duas principais divisões, quatro estádios têm piso sintético. São eles: Allianz Parque, do Palmeiras, Ligga Arena, do Athletico-PR, Nilton Santos, atualmente do Botafogo, e MRV Arena, do Atlético-MG. De pronto, sem nenhuma dúvida, por estarem mais acostumados, tais clubes levam vantagens no confronto com seus adversários. A velocidade da bola é completamente diferente, por exemplo. A polêmica em torno do tema não se restringe ao Brasil, envolve também as principais ligas do mundo. Há, porém, uma convergência: a utilização de gramado artificial é restrita. Sem exceções, os grandes clubes que disputam os principais campeonatos europeus, como Inglaterra, Espanha, França, Itália e Alemanha, utilizam piso natural, no máximo permitem o sistema híbrido, que prevê o uso de material sintético na composição do natural. A Holanda foi mais radical: garante aporte financeiro, desde 2018, para estimular o uso e manutenção de gramado natural. A Fifa, entidade que comanda o futebol mundial, conforme ampla matéria do ge.globo, não proíbe, tem uma posição flexível, autorizando três tipos de piso: natural, relva natural com reforço híbrido e relva sintética/natural. Porém, mantém um rigoroso programa de controle de qualidade, indicando padrões e fabricantes licenciados para assegurar também segurança e durabilidade. Decidiu, porém, que todos as partidas das copas do mundo, de todas as categorias em 2025, 2026 e 2027, incluindo o Mundial de Clubes, previsto para junho, terão grama natural. De todo esse grande imbróglio, que pode ser traduzido como enredo complicado ou confuso, vale destacar o ‘levante’ de grandes líderes do Brasil e a consequência direta, que é o debate em torno do assunto, com isenção e absoluta profundidade. Em todo esse contexto, o meia Lucas do São Paulo foi muito feliz: a questão é técnica, o gramado natural faz parte da essência do futebol. No tênis, os pisos evoluíram ao longo dos anos, passando por diferentes materiais, como saibro, grama, cimento, asfalto, carpete e até madeira e ninguém contesta que o tipo de quadra influencia o ritmo de jogo e a movimentação dos jogadores.