(Divulgação) Inegavelmente, poço tem fundo, um ponto final, independentemente da profundidade. Na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a impressão é de que o poço não tem limite, não tem fim, contrariando a lógica natural. A expectativa era de que a instituição entrasse em um período de paz, de calmaria, de bons ventos, afinal, após pelo menos dois anos, o sonho de contratar o italiano Carlo Ancelotti foi concretizado. Ele até já assinou o contrato e definiu a pré-lista dos jogadores que serão convocados para os dois próximos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026. De repente, a bomba: numa decisão monocrática, um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Gabriel de Oliveira Zefiro, determinou o afastamento do presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, por suspeita de fraude na última reeleição. Foi a segunda vez que o magistrado decidiu pela destituição do dirigente, com base numa acusação de falsificação de assinatura. Na primeira, o então presidente recuperou o cargo após uma liminar do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, praticamente homologando um acordo entre a entidade, mais cinco dirigentes e a Federação Mineira, reconhecendo uma assembleia que elegeu Ednaldo Rodrigues em 2022. No início deste mês, o atual vice-presidente e agora interventor nomeado Fernando Sarney pediu que a homologação do acordo fosse suspensa e o desembargador deferiu de pronto, afastando Ednaldo e determinando a realização de eleição imediata para escolha do novo comandante da CBF. O edital foi publicado sexta-feira e a partir de hoje, até terça-feira, está aberto o prazo para inscrição de chapas. Assunto resolvido? Aparentemente sim, porém, Ednaldo novamente recorreu ao STF para reassumir o cargo. Parece difícil que isso ocorra, contudo, tratando-se de CBF, tudo é possível. Os eleitores são 27 federações, com voto peso 3, 20 clubes da Série A, com peso 2, e mais 20 da B, com peso 1. Entre eles o clima é de que ‘o rei morreu’. Nenhuma surpresa. Nos bastidores, as informações dão conta que maioria do colégio eleitoral já abandonou Ednaldo Rodrigues e que a meta agora é definir o sucessor. Na quinta-feira, no final da noite, sem hesitar, um grupo de 19 federações divulgou um manifesto propondo renovação e descentralização do futebol brasileiro, ignorando o presidente afastado e prometendo um candidato dentro do grupo. O interventor, Fernando Sarney, garante que não é candidato e que apenas conduzirá o processo eleitoral. E marcou o pleito para o dia 25, simplesmente no próximo domingo. Será verdade? Na sexta à noite, mais uma surpresa: a informação de que o grupo dos 19 decidiu lançar a candidatura de Samir Xaud, de Roraima. O desconhecido dirigente, cujo histórico no futebol nacional é nulo, já teria o apoio de 22 federações. Xaud é apenas o futuro presidente da Federação de Futebol de Roraima, uma liga que tem apenas 10 times. Foi eleito em janeiro de 2025, mas só assumirá o cargo em 2027, após 40 anos de mandato de seu pai, conhecido como Zeca Xaud. Tem toda a pinta de um ‘velho coronel’ da região Norte. Uma curiosidade: a instituição nunca teve um clube na Série A e nem na B. O cargo de presidente da CBF exige, no mínimo, uma boa dose de experiência em uma unidade de porte, caso contrário, o risco de fracasso é muito grande. E quem pagará é o futebol brasileiro, há muito num verdadeiro caos. Xaud mais parece um coelho tirado da cartola. Ontem pela manhã uma notícia importante: o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, oficializou sua candidatura à presidência da CBF. Um nome forte, trata-se de um dirigente experiente e com bom trabalho em São Paulo. Sem dúvida, uma boa opção, que terá como primeira missão ‘quebrar’ a aparente união das 19 federações e finalmente tirar o poder do Rio de Janeiro. Esse novo imbróglio na CBF, num primeiro momento, surgiu também como uma ameaça ao início de trabalho de Carlo Ancelotti. O treinador garantiu que pretende cumprir o contrato assinado com Ednaldo Rodrigues, mas nada impedirá que o futuro presidente da instituição decida anulá-lo e opte por outro técnico. Seria mais um grande retrocesso. Com certeza, o técnico italiano está inseguro e temeroso de seu trabalho no Brasil, afinal, quem o contratou não manda mais nada. E já deve ter percebido que o futuro é incerto. Por enquanto, é impossível fazer uma previsão em torno do futuro da CBF e consequentemente da seleção brasileira. Sonhar com uma grande mudança é válido, por circunstâncias, porém, o mais provável é que o futebol brasileiro perca mais uma grande oportunidade de uma virada radical, prevalecendo o chamado ‘establishment’, termo que à luz da sociologia e da ciência política descreve o grupo social dominante, a elite que controla uma política, uma organização ou uma instituição.