(Cesar Greco/Palmeiras/by Canon) A manifestação racista contra o jovem atacante Luighi, do Palmeiras, por parte de um torcedor durante a partida contra o Cerro Porteño, do Paraguai, pela Libertadores sub-20, não pode se transformar em apenas mais um caso e gradativamente cair no esquecimento. Não pode se limitar às notas oficiais de quase todos os clubes brasileiros, da CBF e até da Fifa, protestando e se solidarizando com o atleta. Vinicius Júnior, do Real Madrid, hoje um símbolo mundial contra o racismo, justamente por ter sofrido várias manifestações preconceituosas, fez questão de postar uma mensagem, no Instagram, para Luighi: “Parabéns pelo posicionamento, mano. É triste, mas fique forte, vamos juntos nessa luta. Até quando, Conmebol? Vocês nunca fazem nada. Nunca”. A repugnante manifestação em si foi igual ou muito semelhante a várias outras que ocorreram ao longo dos últimos anos, com torcedores imitando macacos e até jogando bananas em campo. Desta vez, pelas primeiras imagens, o responsável foi um jovem com uma criança no colo, simulando gestos e emitindo sons característicos dos símios. Um outro ainda cuspiu no atleta, no momento em que foi substituído. A de quinta-feira, no Paraguai, foi mais impactante pelo desabafo do jogador na entrevista protocolar após a partida, ao repórter da emissora oficial da Conmebol. Na prática, deu também uma lição ao jornalista, se insurgindo com a pergunta sobre o jogo e deixando completamente em segundo plano a manifestação racista. O bom exercício do jornalismo indica que se comece sempre pelo principal, o chamado ‘lead’, que é a abertura da matéria, incluindo o essencial para permitir rápida compreensão do leitor, ouvinte ou espectador. Diante da pergunta genérica sobre o jogo, que terminou com a vitória do Palmeiras por 3 a 0, Luighi reagiu: “Não, não. É sério isso? Vocês não vão me perguntar sobre o ato de racismo que ocorreu hoje comigo? O que fizeram comigo é crime, não vai perguntar sobre isso?”. O repórter não reagiu, apenas manteve o microfone aberto. O jogador, na sequência, desabou em prantos, numa reação comovente, a mais forte observada em casos de manifestações racistas. Em meio às lágrimas, ainda questionou sobre qual seria a reação da Conmebol e da própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF). E lembrou que todos os atletas “que estavam em campo “são de formação”, numa referência por integrarem divisões de base dos clubes, portanto, jogadores ainda em completo desenvolvimento esportivo e educacional. Mais tarde, em outra entrevista, o atacante disse que na hora foi tomado por um grande sentimento de ódio, também pelo fato de policiais que estavam nas proximidades não terem esboçado qualquer reação para prender o torcedor. “Fica o aprendizado...”. Nas horas posteriores ao crime, alguns defenderam que o Palmeiras se retirasse da competição em sinal de protesto. Leila Pereira, presidente do clube, acertou mais uma vez, destacando que o seu time não deixará a competição e que o correto será a eliminação sumária do Cerro Porteño. E mais: garantiu que a instituição que dirige utilizará todas as instâncias para que o episódio não termine em nova impunidade. A CBF, vale destacar, também pediu a exclusão do time paraguaio do torneio, mas até agora a Conmebol permanece em silêncio. Aliás, sua postura tradicional, como a lenda do avestruz, que enfiaria a cabeça na terra quando quer fugir de uma tormenta, ou por simples medo. Essa omissão, sem dúvida, é inadmissível. O time paraguaio e seus torcedores são reincidentes específicos, protagonizaram atos semelhantes em 2022 e 2023, em jogos contra o próprio Palmeiras. Portanto, há motivos suficientes, todos graves, para uma punição exemplar. A grande questão é que em alguns países o racismo não é crime, dificultando qualquer medida mais drástica. A Fifa, contudo, tem poderes para interferir e punir clubes ou países, combatendo o racismo. A união dos clubes, do Brasil e do mundo, também é uma arma poderosa para acabar definitivamente com o racismo no futebol. Se alguém duvida da gravidade do problema, basta ler o Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol, uma análise sistêmica dos incidentes ao longo dos anos. A entrevista de Luighi é mais um grito de alerta, instando todos a reagirem. Ponderou, com muita felicidade, que espera rigor da Conmebol e que multas não levam a nada. Com muita lucidez, defendeu pelo menos punições esportivas. E mais: disse que a punição não é apenas uma necessidade jurídica, é uma obrigação moral e institucional para que o combate ao racismo deixe de ser um discurso vazio.