(Lucas Figueiredo/ CBF) Depois de muitos anos praticamente ignorando os interesses, sonhos e pleitos diretos dos clubes, finalmente a CBF está em conexão com o futebol nacional. Foram muitos anos de distanciamento e principalmente escândalos nacionais e mundiais, a ponto de sucessivos presidentes terem sido ejetados do cargo. Alguns terminaram presos, como o ex-governador de são Paulo, José Maria Marin, já falecido; outros estão ‘presos’ no Brasil, como Ricardo Teixeira e Marco Paulo Del Nero (se saírem do País serão detidos pela Interpol); e outros deixaram o cargo por acusações de assédio sexual e tentativa de golpe estatutário para se manter no poder. A eleição de Samir Xaud, um ilustre desconhecido da Federação de Roraima, inicialmente causou grande desconfiança, apesar do apoio maciço das federações e grandes clubes do Brasil. São Paulo foi um dos poucos que se insurgiram, mas acabou literalmente atropelado pela candidatura oficial. Não houve nem disputa, foi chapa única, a oposição ficou no papel e manifestos. Há que se reconhecer, porém, que depois de muitos anos a CBF está trabalhando em sintonia com os clubes. O primeiro grande acerto foi manter Carlo Ancelotti como treinador da seleção brasileira, apesar de ter sido contratado na gestão anterior, de Ednaldo Rodrigues, que só deixou o cargo por decisão judicial. O técnico italiano trouxe paz para a equipe nacional, hoje é quase uma unanimidade e esperança de conquista de mais um título mundial. Tem sido justo e coerente, com seu estilo tranquilo e simpático, e se esforça diariamente para aprender nosso idioma. O segundo passo positivo da CBF, indo ao encontro dos interesses dos clubes, foi a mudança do calendário nacional, mesmo num ano de Copa do Mundo, que exigirá exatos 38 dias de disputa A alteração reduziu o tempo de disputa dos estaduais e introduziu simultaneamente o Campeonato Brasileiro, a competição mais rentável e importante. As partidas se intercalam, até confundindo os torcedores, porém, em razão do Mundial, foi a melhor opção. Com certeza, para 2027 o modelo pode ser aperfeiçoado. No ano passado, vale lembrar, na fase final do Campeonato Brasileiro a CBF criou um grupo de trabalho para pelo menos minimizar as muitas reclamações contra as arbitragens, com prejuízos aos mais variados clubes. Nesse contexto, há poucos dias, anunciou o início do programa de profissionalização dos árbitros, outro antigo sonho dos principais dirigentes do futebol brasileiro. Esse processo será rigoroso, exigindo até certificado de exclusão de CPFs de sites de apostas. A CBF recebeu 100% de aceitação dos árbitros, assistentes de campo e do VAR para assinatura de contrato de março a dezembro. Os salários fixos vão variar de R\$ 10 mil a R\$ 22 mil, além dos valores por escala, cujo teto será de R\$ 5 mil. Inegavelmente, mais um ponto positivo para a CBF, assim como foi a recente imersão nos principais centros da Europa, levando dirigentes dos principais clubes do Brasil. Surpreendentemente, dando mais um sinal de que a meta é mudar radicalmente, a CBF anunciou oficialmente que vai debater mais dois temas importantes: a redução do número de rebaixamentos e acessos nos campeonatos das séries A e B e também a questão do uso de gramados sintéticos. Samir Xaud foi direto, alertando que a instituição “vai entrar de cabeça” no tema principal. No Brasil, atualmente, caem quatro e sobem quatro clubes, num processo que a cada ano ameaça grandes times do Brasil. Na Premier League, na Inglaterra, a cada ano caem três clubes; na Espanha, em La liga, também três são rebaixados, e na Liga Francesa o sistema é o mesmo. Nos bastidores, muitos dirigentes sonham com uma mudança mais drástica, com a queda e acesso de apenas dois. O tema, sem dúvida, provocará muitas divergências e polêmicas, o importante é que finalmente a CBF se dispôs a enfrentar a questão em conjunto com os clubes. O número de rebaixados permanece inalterado desde 2004, assim como a Série A com 20 participantes. Em relação aos gramados sintéticos, também é válida a discussão e até a Fifa está envolvida. É uma questão bem mais complicada, vários clubes, como Palmeiras e Atlético-MG, há muito abandonaram o piso natural, afinal a manutenção é mais barata e minimiza os impactos na realização de shows e outros espetáculos. O importante é que o assunto seja debatido, atendendo até a reclames de grandes jogadores, que evitam atuar em campos artificiais Para comprovar os novos tempos, a CBF também vai avaliar a redução dos números de jogadores estrangeiros nos clubes, para tentar conter essa verdadeira invasão que se registra. Atualmente, são permitidos nove por partida, número considerado muito elevado no futebol brasileiro. Por tudo isso, é inegável que a CBF saiu da contramão do futebol brasileiro.