(Lucas Figueiredo/CBF) Apesar da fragilidade do Chile, último colocado na classificação das Eliminatórias, não há como esconder certo otimismo com a seleção brasileira. A vitória por 3 a 0 na quinta-feira foi convincente e apresentou pontos muitos importantes. Um deles é que o italiano Carlo Ancelotti conquistou definitivamente a sempre exigente e emocional torcida brasileira. Esse sentimento decorre da simpatia do treinador, de sua postura desde que chegou ao Brasil, de seu profissionalismo e de sua competência. Seu esforço, por exemplo, de assimilar rapidamente nosso idioma, apesar de falar bem o espanhol, é um sinal claro de que quer se integrar ao projeto de corpo e alma, o mais rapidamente possível. Apesar do currículo vitorioso em vários clubes e países, levar o Brasil ao hexacampeonato é o maior desafio de sua carreira. Se conseguir, definitivamente entrará para a galeria que reúne os melhores treinadores da história do futebol. O que mais chama a atenção nesse curto período de trabalho é sua competência. Desde a primeira convocação, indicando que conhece o futebol brasileiro, mostrou estratégia e conhecimento do quadro de atletas do Brasil, cuja maioria atua mundo afora. Uma de suas primeiras decisões foi recolocar o volante Casemiro na seleção. O jogador, atualmente no futebol inglês, durante anos foi seu homem de confiança no Real Madrid, num período longo de grandes conquistas. Consta que até chorou quando o atleta decidiu deixar a Espanha para disputar a Premier League. Ainda que não seja um supercraque, Casemiro tem grande qualidades técnicas, além de uma liderança natural. Desde que voltou, deu estabilidade ao meio-campo e resolveu a indefinição sobre quem deve ser o titular da posição. A afinidade com o treinador é muito grande, e em recente entrevista o volante disse que o Brasil precisa “desfrutar” a presença de Ancelotti. “São muitos anos em alto nível, é um dos ícones do futebol mundial. Ele transmite confiança e paz”. Para o jogo contra o Chile, não hesitou em fazer experiências visando a formação gradativa de um grupo. Além de Paquetá, agora inocentado das acusações de manipulação de resultados, dentre outros, chamou Douglas Santos e Luiz Henrique, até então esquecidos no futebol russo. Ambos jogam juntos no Zenit. Os dois corresponderam plenamente em campo. Principalmente Luiz Henrique, ex-Botafogo, que participou diretamente dos dois últimos gols do Brasil no segundo tempo. O atacante literalmente encantou os torcedores e sinalizou que é possível resgatar a essência do futebol brasileiro, cuja base sempre foram a criatividade e o improviso. O lateral fez apenas seu segundo jogo pela seleção, o intervalo entre as duas convocações foi de nove anos. A primeira vez foi com Dunga no comando e depois foi campeão olímpico na Rio-2016. Retornou agora aos 31 anos, num momento em que o Brasil vive uma indefinição sobre o titular da posição. Ele participou da construção da jogada do primeiro gol e ao longo dos 90 minutos teve uma atuação equilibrada. A convocação de Douglas Santos e Luiz Henrique demonstra que Carlo Ancelotti está antenado com o futebol mundial. Paquetá também correspondeu, marcando até um gol, e indicou que pode ser uma das grandes opções do Brasil na próxima Copa do Mundo. É óbvio que até o Campeonato Mundial o grupo pode sofrer muitas alterações, haverá amistosos importantes. Porém, está claro que o treinador registra a movimentação de cada um, independentemente da idade. E que ninguém tem lugar garantido. Em termos de Eliminatórias, ainda há um jogo a cumprir, contra a Bolívia, na terça-feira, numa altitude superior e 4 mil metros, em El Alto. Um absurdo sem dúvida, mas é uma arma antiga da seleção boliviana para tentar vencer grandes adversários e superar seu desnível técnico. Para os bolivianos, que ocupam a sétima posição na classificação, ainda há chance. Precisam vencer e torcer para uma derrota ou empate da Venezuela contra a Colômbia. Se isso ocorrer, vão disputar a repescagem contra um time da Oceania. Pelas condições adversas, principalmente pela altitude, será um jogo muito difícil para o Brasil, porém, com Ancelotti e suas experiências, mais uma vez o Brasil poderá demonstrar que está no caminho certo.