Bruno Henrique é alvo de relatório da Polícia Federal (Alexandre Vidal / Flamengo) De pronto, vale lembrar um princípio fundamental no sistema jurídico nacional: a presunção de inocência, que estabelece que toda pessoa acusada de um crime é considerada inocente até que sua culpa seja provada em um processo judicial. E mais: que a sentença tenha transitado em julgado, que não caibam mais recursos. Registrada essa premissa, até esse momento o atacante Bruno Henrique, craque do Flamengo, por enquanto tem que ser considerado inocente da acusação de ter forçado um cartão amarelo para beneficiar apostadores, um deles seu irmão. O status do problema envolvendo o atacante, porém, parece grave, em relação a outros que dominaram o noticiário e até terminaram com punições esportivas. As acusações contra Bruno Henrique constam de um amplo relatório da Policia Federal, com 84 páginas, com indicação de indiciamento. Ele foi enquadrado no artigo 200 da Lei Geral do Esporte, que dispõe sobre fraudar, por qualquer meio, ou contribuir “para que se fraude, de qualquer forma, o resultado de competição esportiva ou evento a ele associado”. A pena é de dois a seis anos de reclusão, mas pode ser de um a cinco anos, se for caracterizado o estelionato. O relatório da PF será agora analisado pelo Ministério Público Federal, que decidirá pelo oferecimento ou não de denúncia. Se o MP denunciar, a palavra final para a abertura efetiva do processo caberá à Justiça, para início formal da tramitação. É bem provável que isso ocorra, pelas provas obtidas, que incluem prints de trocas de mensagens entre o atleta e os apostadores. Com certeza, o rito será longo, com passagens por diversas instâncias. Assim, por enquanto, em tese, BH poderá continuar jogando, se tiver personalidade e força mental/emocional para suportar a pressão natural do episódio e das torcidas adversárias. Há, contudo, mais um aspecto envolvendo o caso: a ação da instância esportiva. No ano passado, quando veio à tona a ação da Polícia Federal, a Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) arquivou o caso, sob alegação de que a Sportradar, empresa contratada pela CBF para apurar eventuais casos de manipulação, não apontava nenhum indício de que o atleta tivesse obtido vantagem econômica. Segundo o presidente do STJD, Luis Otávio Veríssimo Teixeira, em entrevista ao ge, site do Grupo Globo, a condenação na Justiça Desportiva ocorre a partir de instrumentos persecutórios próprios de autoridades policiais, MP e Justiça. Em síntese: o combate à manipulação na esfera desportiva está também atrelado à ação dos órgãos públicos institucionais, o que ocorre no caso envolvendo Bruno Henrique. Nesse contexto, a possibilidade de uma punição preventiva é real e pode ser aplicada antes mesmo de uma decisão judicial. A pena final no STJD pode chegar a dois anos de suspensão e até banimento do futebol. Possibilidades de punição à parte, uma questão muito importante envolve o motivo, ou a razão, que levou o atacante a se envolver nesse episódio, em valores da ordem de pouco mais de R\$ 10 mil, segundo informações preliminares. Bruno Henrique é hoje um dos grandes atacantes do futebol brasileiro, com grande vivência internacional e passagens pela seleção brasileira. Por seu nível técnico, é também um dos maiores salários do futebol brasileiro, com totais condições de atender a todas as suas necessidades e da família em geral. Sem que lhe faça nenhuma falta. Diante disso, jamais poderia se envolver num caso de fraudes para beneficiar apostadores. É inadmissível, pela longa carreira, que não tenha avaliado o risco de participar de tal ação, comprovada na longa investigação realizada pela Polícia Federal e pelas conversas com os beneficiados. Ingenuidade, sentimento de impunidade ou burrice, usando um termo mais popular? Talvez um misto das três opções. A maioria dos jogadores do Brasil e do mundo, sem dúvida, conta hoje com assessores e empresários experientes, não é possível que não tenham alertado o atleta. O mais provável é que Bruno Henrique tenha atuado isoladamente, num conluio direto com seus apostadores, que também podem se tornar réus. São grandes as possibilidades de Bruno Henrique ter decretado o fim de sua carreira. Ou pelo menos literalmente sujado sua brilhante história no campo. Não é o único, Lucas Paquetá, ex-Flamengo e atualmente no West Ham, da Inglaterra, também carrega uma grave acusação de fraude para atender a ganância de apostadores. Seu julgamento começou semana passada e ele também pode ser banido do futebol. Essa é a punição pedida pela FA, federação inglesa de futebol.