Desde os seus tempos de goleiro, Rogério Ceni nunca foi uma unanimidade. Não por seu nível técnico, mas sim por sua personalidade, por seu ar arrogante, beirando a prepotência. Na língua francesa há uma expressão que o define bem: “rempli de soi-même””, que numa tradução básica pode ser traduzida por “Cheio de si mesmo”. Essa locução descreve uma pessoa que é muito convencida de seu próprio valor, que se considera suficiente por si só. É óbvio que no futebol, um esporte coletivo, isso não se aplica completamente, ninguém ganha uma partida sozinho. Nem Pelé, Rei do Futebol, o maior e melhor de todos os tempos. Ainda que tenha decidido dezenas de partidas, por sua genialidade, jamais avocou para si, individualmente, uma grande vitória. No Santos e na seleção brasileira. Rogério Ceni, sem dúvida, é um dos grandes goleiros da história do futebol brasileiro, por suas virtudes como atleta, destacando principalmente a qualidade para cobrar faltas e pênaltis, atributos raros para um jogador da posição. Ao longo da carreira marcou 131 gols oficiais, todos vestindo a camisa do São Paulo, consagrando-o como o maior artilheiro/goleiro da história do futebol. Foram 129 em partidas de competição formal. Não conseguiu, porém, evitar a imagem arrogante e até autoritária. Numa determinada partida por seu clube, mesmo no gol, ousou desafiar e contestar, de forma acintosa, uma substituição feita pelo treinador. Assim, angariou muitos fãs e dezenas de críticos, dentro e fora do campo. Depois que abandonou o futebol, também por ter um nível intelectual diferenciado, optou pela carreira de técnico. Atualmente, é treinador do Bahia, um clube-empresa que tem parceria com o poderoso Grupo City, que comanda também o Manchester City, um dos melhores times do mundo e da Premier League. A postura continua a mesma, a humildade permanece relativa, contudo, é inegável que tem muitas condições para se firmar como um grande treinador no futebol brasileiro. Já passou pelo próprio São Paulo, pelo Fortaleza, Cruzeiro e até pelo Flamengo, onde foi campeão brasileiro e carioca. Assim mesmo acabou demitido, a partir de alguns resultados negativos e de desgastes internos com profissionais do clube. No clube mineiro, sem dúvida, foi um fracasso. Faz parte, está apenas começando uma nova etapa. Na semana passada, após a eliminação do Bahia da Copa do Brasil, na fase de quartas de final, pelo Fluminense, por 2 a 0, novamente foi notícia nacional. Na entrevista coletiva pós jogo, ativou o modo “sincerão” e literalmente fez sérias críticas à atuação do time, sem, porém, apontar culpados individualmente. Rigorosamente, expôs sua grande frustração e fez uma análise correta do que ocorreu em campo, com frases como o “time não jogou absolutamente nada” ou “faltou tudo, faltou coragem e faltou personalidade”. E mais: ao ser questionado sobre o ambiente no vestiário, foi ainda mais contundente, proferindo dois conhecidos palavrões: “... uma b...., uma m....”. A repercussão foi imediata, com muitas críticas ao conteúdo geral da coletiva, mas na prática deu uma lição de honestidade. Grande parte dos treinadores, infelizmente, depois de derrotas, gosta de tergiversar ou negar a realidade da partida, se utilizando de evasivas, subterfúgios ou rodeios irritantes. Apesar dos palavrões e das críticas abertas, Ceni não merece ser crucificado por tais declarações. Sua contribuição, ao falar e expor a realidade e seus sentimentos naquele momento, quase sempre camuflados por frases feitas, foi positiva e indicou um caminho a ser seguido, garantindo mais honestidade e transparência. No Brasil, alguns treinadores e clubes blindam os atletas em excesso, sem expor responsabilidades. É comum afirmarem “eu assumo a responsabilidade”. No futebol profissional não cabem mais paternalismo e protecionismo exagerado. Rogério Ceni, com suas virtudes e defeitos, é parte de uma nova geração de treinadores brasileiros, assim como Filipe Luis, que dirige o Flamengo com sucesso. Aliás, ainda recentemente, o jovem treinador do clube carioca não hesitou em literalmente expor a realidade do bom atacante Pedro, que não apresentava postura profissional nos treinamentos. Até o afastou do grupo por alguns jogos e contou com o apoio da diretoria, o que foi também fundamental. A maioria dos técnicos brasileiros critica a presença de vários treinadores estrangeiros no Brasil, principalmente portugueses e argentinos. A verdade é que pararam no tempo, não evoluíram, não se reciclaram, não estudaram, perdendo espaço no mercado do futebol, cada vez mais exigente. Rogério Ceni é relativamente jovem, tem apenas 52 anos, assim como Filipe Luis (40), já cobiçado por clubes europeus. Ambos com certeza vão contribuir muito para o futebol brasileiro. E vão servir de exemplos para os velhos colegas do Brasil.