(Reprodução) A cúpula da Fifa, que define as normas e regras do futebol mundial, há muito precisa de renovação de seus integrantes, em um rejuvenescimento natural para adaptação mais rápida aos novos tempos. É um lugar comum que o chamado “board” da entidade é composto por dirigentes superados, inimigos da atualização e modernização. A experiência e a vivência, sem dúvida, são importantes em qualquer grupo, porém, é preciso que haja um equilíbrio, uma mescla, com dirigentes mais jovens para que nada se perca no tempo. É verdade que desde os escândalos de João Havelange e Joseph Blatter, a interinidade de Issa Hayatou e a eleição de Gianni Infantino, houve certa evolução, mas esse quadro muito se deve também ao continuísmo. Havelange ficou no poder de 1974 a 1998, Blatter de 1998 a 2015 e Infantino está na presidência desde 2016, há quase dez anos. O brasileiro comandou o futebol mundial por 24 anos e o suíço por outros 17. É muito tempo e com o passar dos anos a acomodação e os interesses passam a predominar. A questão do racismo e preconceito é um bom exemplo. Apesar dos muitos casos em praticamente todos os pontos do mundo, as reações sempre foram tímidas, mesmo com tamanha gravidade. As agressões sucessivas ao brasileiro Vinicius Júnior são um bom exemplo disso, pois nada foi feito de concreto. Pois bem, como registra o velho adágio, o “mundo só é ruim para quem não sabe esperar”. Na última sexta-feira, durante o 74º Congresso da Fifa, o conselho da entidade aprovou por unanimidade a revisão do Código Disciplinar, endurecendo a luta contra o racismo. Além de incluir multas milionárias aos clubes, finalmente admitiu a derrota por WO como severa punição. A sanção pecuniária pode chegar a 5 milhões de francos suíços (cerca de R\$ 34 milhões). É importante destacar que a revisão aprovada não dá apenas oportunidade de ação para a Fifa, as associações-membros também poderão atuar de imediato. O novo texto, segundo Infantino, entrará em vigor ainda no verão europeu, marcando uma etapa decisiva para erradicar o racismo do futebol. No total, são 211 entidades afiliadas, proporcionando uma amplitude mundial. Além das multas e possibilidade das equipes perderem por WO, a revisão incluiu a “responsabilização em casos de abusos racistas”. Traduzindo: os jogadores e oficiais de jogo poderão ajudar a identificar os autores de insultos racistas para facilitar as medidas necessárias, incluindo a imediata remoção dos agressores do estádio. Nesse contexto, está clara a possibilidade de punir criminalmente o autor das manifestações racistas. Esse ponto é fundamental, pois somente com sanções judiciais fortes e rápidas o racismo será erradicado do futebol. O Congresso de sexta-feira também decidiu que a associações afiliadas, no nosso caso a CBF, obrigatoriamente terão que adaptar suas regulações disciplinares ao novo Código Disciplinar da Fifa. Por fim, foi aprovada a possibilidade de intervenção da Fifa quando determinada entidade não adotar as medidas cabíveis em casos de racismo. Num primeiro momento, se julgar que a reação da associação foi negligente ou insuficiente, a Fifa poderá recorrer ao Tribunal Arbitral de Esportes (TAS) para garantir eventual direito de defesa e manifestação. Com isso, em caso de flagrante complacência, a Fifa poderá agir de pronto, com as medidas que julgar necessárias. Um exemplo claro ocorreu na recente manifestação racista contra um atleta do Palmeiras na Libertadores Sub-20, numa partida contra o Cerro Portenho. Apesar da gravidade, a Conmebol foi tímida em sua reação, provocando manifestações da CBF e até uma proposta de desfiliação de clubes brasileiros da instituição sul-americana. A ideia da presidente Leila Pereira era de que todos migrassem para a Concacaf, entidade que comanda a América Central. Ainda pior foi a declaração do presidente da Conmebol, Alejandro Domingues, ao ser questionado sobre a possibilidade dos brasileiros se retirarem as competições continentais. Num total descaso à questão, simplesmente disse que a saídas dos clubes dos torneios seria o mesmo que “Tarzan sem Chita”. Ainda que tenha se desculpado posteriormente, sua fala foi mundialmente condenada, até pelo governo brasileiro, em manifestação oficial. Por tudo isso e pela falta de consciência em relação ao problema do racismo no futebol, a revisão do Código Disciplinar da Fifa é um bom avanço, ainda que tardio. Mas, que as mudanças não se limitem ao texto e definitivamente entrem em campo.