(FreePik) Pegou a caneta com a mão trêmula. Fechou os olhos e pediu, com um esforço quase sobrenatural, que os deuses da sorte o guiassem na escolha dos números que seriam sorteados na grande loteria do final do ano. Aos poucos, rabiscou as dezenas que a intuição apontou. Sentia medo de errar e esperança de acertar. Tirou da carteira os trocados que ainda lhe restavam e pagou a aposta. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A caminho de casa, seu olhar congelado apontava para a janela do ônibus, por onde passavam pessoas, esquinas, postes e lojas. Sentia o peito oprimido. Dívidas no banco, filho doente, remédios caros, contas atrasadas e incertezas no trabalho. “Se existe alguma justiça neste mundo, eu serei o ganhador”, pensava, alimentado por uma espécie de delírio e desespero. Ao chegar na humilde moradia, onde os velhos problemas o aguardavam, quase se entregou ao desânimo habitual. Antes que desmoronasse, pegou o comprovante da casa lotérica, deu um sorriso inocente e beijou o papel. Sentiu orgulho ao se convencer de que estava fazendo alguma coisa para sair daquela situação. O primeiro passo já dera. Restava apenas cravar os números milionários. Imaginou dezenas de vezes o grande momento do sorteio. Via maravilhado, diante da televisão, serem anunciados os números mágicos que escolheu. Um a um, até o êxtase. Pensou nas lágrimas de felicidade e na família abraçada festejando o fim de todos os problemas. Naquela noite, dormiria com o papel da aposta na mão. Ou melhor, nem dormiria de tanta emoção. O humilhado tinha ficado no passado. Seria um outro homem. Já podia se ver entrando no banco no dia seguinte. “Me chame o gerente”. Dali em diante seria tratado de forma diferente. Não mais seria visto como um devedor. Todos lhe estenderiam um tapete vermelho. Parentes e amigos interesseiros tentariam uma aproximação. No trabalho, só apareceria três dias depois para comunicar a sua demissão. Iria se divertir vendo o olhar de espanto dos colegas. “Agora todos me invejam”. Finalmente, compraria o carro dos seus sonhos. Ah, e uma casa com piscina também! Viagens, roupas caras, festas... Carreiristas que nunca olharam para ele começariam a demonstrar interesse. Com o ego nas alturas e paparicado, bem que poderia esquecer da vida de privações e se entregar às tentações. “Cansei de roer o osso”. Na hora do sorteio, foi para a frente da televisão. A respiração ofegante denunciava o nervosismo. A esperança, porém, desabou logo que o primeiro número foi anunciado. Assim como o segundo, o terceiro e todos os outros... Sentado no sofá, de cabeça baixa e com as mãos entre os joelhos, tentava digerir a derrota. Apenas uma palavra martelava seus pensamentos: “Injustiça!” Lágrimas de raiva brotaram em seu olhar de perdedor. Com pena de ver o marido naquele estado, sua mulher o abraçou carinhosamente. Passou a mão pelos seus cabelos e lhe deu um beijo no rosto. “Não fique triste, meu amor. Deus sabe o que faz”. Incapaz de enxergar que era um homem de sorte, levantou-se sem dizer qualquer palavra. Perdido no labirinto das próprias ilusões, foi dormir para acordar cedo e trabalhar.