(FreePik) Foi no centro da cidade que Libânio encontrou Jairzinho, seu amigo de infância. Não se viam há pelo menos 20 anos. - Rapaz, você não acredita! Foi o destino. Vou me casar no sábado. Faço questão que você vá! Libânio hesitou, mas achou que seria deselegante recusar o convite do velho colega. Falaram da vida, trocaram um aperto de mãos e Libânio foi embora com um pedaço de papel onde estavam escritos o local e a hora do casamento, que aconteceria em menos de 72 horas. Só quando chegou em casa lembrou que não tinha roupa adequada para ocasião tão formal. No dia seguinte, foi atrás de uma loja de aluguel de trajes para festa. Encontrou uma brecha na hora do almoço e conseguiu reservar um costume. Agulhas, linhas, marcações e ajustes da costureira. - Pode vir pegar amanhã no fim da tarde. Libânio já estava saindo quando se tocou que também não tinha um par de sapatos decente. O sapatênis com zíper ficaria ridículo com o terno. Demonstrando impaciência, que era compartilhada pelo convidado, a dona do estabelecimento pegou um par de sapatos pretos de couro. Libânio viu que seus pés cabiam neles, se deu por satisfeito e partiu, incomodado com toda aquela formalidade. No dia do casamento, já arrependido por ter aceitado o convite, Libânio se vestiu e calçou os sapatos alugados. Não tardou a sentir os dedos dos pés espremidos dentro do calçado. Não tinha nem uma folga para dar uma esticadinha. Parecia que aqueles sapatos infelizes queriam esganar seus pés. A cerimônia foi uma tortura para Libânio. Fazia muito calor na igreja e, enquanto o padre falava e as mães dos noivos discretamente enxugavam as lágrimas, ele só pensava em libertar seus pés daqueles sapatos. Imaginou o tremendo chulé que isso poderia causar e desistiu. Os dedos já estavam dormentes e o calcanhar parecia pegar fogo. Mexia as pernas impacientemente. Uma desconhecida que estava ao lado percebeu e fez cara feia. Cumprimentos para os noivos. Uma fila enorme. Ainda faltava a festa. Libânio suava só de pensar por mais quantas horas teria de aguentar aquele sapato apertado. “Vou sair de fininho e sumir”, pensou. Que nada! Jairzinho o puxou e agradeceu efusivamente por ter ido ao matrimônio. - Faço questão que você fique na mesma mesa que a minha família. Vamos comemorar! Libânio não tinha como escapar. Saiu da igreja e, no caminho para o salão de festas, viu um supermercado aberto. Entrou. Em uma gôndola, pares de chinelos. Aquela visão parecia um oásis no meio do deserto. Mal passou pelo caixa e se livrou daqueles malditos sapatos. Como era bom deixar os pés respirarem! Calçou os chinelos e foi para a festa ao melhor estilo bicho-grilo. Ainda que tivesse recebido olhares de desaprovação, foi visto por muitos como um cara descolado. Era preciso ter muita personalidade para ir a uma festa de casamento com chinelos de dedo! Os noivos ainda fizeram questão de tirar uma foto com ele e no fim da festa promoveram um bingo para ver quem ficaria com as sandálias da humildade. Moral da história: quando a rotina parecer um sapato apertado, voltar à simplicidade pode ser a melhor saída para a alma respirar.