(FreePik) Perdi a hora. O bonde da história. O andar da carruagem. Acordei com o sol a pino. Pensei demais. Calei-me quando deveria falar. Falei quando deveria calar. Percorri caminhos. De tanto andar, rasguei a sola do tênis. Escrevi frases. Gastei palavras. Compus canções. Amei. Odiei. Sorri e chorei. Corri por ruas e calçadas. Explorei terrenos baldios. Pulei muros. Subi em árvores. Infiltrei-me em festas. Joguei partidas inesquecíveis. Fiz gols antológicos que permanecem vivos apenas na minha lembrança. Tive muitas ideias, mas não escapei da inércia. Apostei as fichas. Ganhei. Perdi. Tive saúde. Sofri com doenças. Pisei no chão frio de hospitais e dormi em leitos de internação. Reclamei de dor de dente. Usei cabelo comprido. Já fiquei careca. Estudei mais do que deveria. Li menos do que gostaria. Aprendi lições. Fui aprovado. Reprovado. Odiei Matemática. Amei Geografia. Dirigi automóveis de quase todas as décadas. Viajei por estradas vazias. Enfrentei enchentes e ruas congestionadas. Atravessei pontes embalado por trilhas sonoras maravilhosas. Já tive sonhos inexplicáveis no espaço sideral, em cemitérios, em cinemas escuros e vazios, em aviões e em terras desconhecidas desta dimensão. Adotei animais e convivi com tantos outros que viviam perambulando pelas ruas da minha cidade. Com eles, conheci o verdadeiro significado do amor puro e incondicional, que nada pede em troca. Já encontrei no céu a estrela da manhã. Contemplei o alvorecer. Dias ensolarados e tardes chuvosas. Suei de frio. Tremi de calor. Observei grandes embarcações partindo, que na linha do horizonte mais pareciam barquinhos de papel controlados por Deus. Dias de mar calmo. Oceano em fúria. Eu vi a morte. Eu vi a vida. Olhos que se abriram para o mundo. Outros que se fecharam para a eternidade. Já vi a morte em vida, renascimentos, abandono, acolhida. Falei em microfones. Minha voz viajou por ondas eletromagnéticas e alcançou lares desconhecidos. Tirei fotografias. Congelei momentos em pedaços de papel e em arquivos digitais. Escrevi laudas. Fiz perguntas. Fiquei sem respostas. Entreguei a palma da minha mão para uma cigana. Jogaram as cartas. Revelaram-me um futuro que até agora não aconteceu. Fui a missas. Rezei. Acendi velas. Encontrei Deus na beleza da simplicidade. Explodi. Pacifiquei. Errei e acertei. Enganei e fui enganado. Fui vítima e culpado. Vivi. Simplesmente vivi. Não perdi a hora. E nem o bonde da história. A viagem, enfim, continua...