Foto ilustrativa (Freepik) Ferreira enxugou o suor da testa com o dorso da mão e olhou para o relógio. Quinze para as duas. As primeiras horas da tarde avançavam e o estômago vazio reclamava. Precisava fazer uma pausa para almoçar, mas o trabalho no escritório fervia naquela terça-feira de verão paulistano. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ajeitou a camisa branca dentro da calça e saiu discretamente. Do outro lado da rua, o Bar do Ronaldo seria a sua salvação. Comer e voltar para o batente em menos de quinze minutos era o seu plano. Entrou apressadamente no boteco e conseguiu um banquinho livre junto ao balcão. Enquanto ainda se ajeitava no rústico assento, pediu em voz alta: – Um omelete, por favor. O atendente, um sujeito magro, com óculos embaçados de gordura e bigode ruivo, aproximou-se de Ferreira e perguntou solenemente: – Um omelete ou uma omelete? – Pode ser uma omelete, meu amigo. O balconista não se deu por satisfeito e, disposto a ganhar a medalha de chato do dia, retrucou: – Agora o senhor me deixou confuso. Primeiro, pediu um omelete. Agora, me diz que quer uma omelete. Qual dos dois eu mando preparar? – Mas não é a mesma coisa? – O omelete é brasileiro. A omelete é francesa – respondeu o balconista, com um sorriso sarcástico que comprimia o vasto bigode entre os lábios e o nariz. Ferreira até que tentou ser simpático e esconder a irritação. Estava com pressa e não queria conversa fiada. Só mastigar alguma coisa e voltar para a repartição. – Eu trabalho naquele escritório que fica ali do outro lado da rua, sabe? Preciso comer bem rápido porque hoje o dia está caótico. É possível preparar o omelete? O balconista fechou a cara, desviou o olhar e perguntou com desprezo: – Com presunto, tomate e queijo? – Do jeito que vocês costumam fazer. – Mas é minha obrigação perguntar como o senhor prefere a sua omelete. Tem gente que gosta com pouco queijo, outros pedem para incluir linguiça, alguns querem que tire a pimenta-do-reino... Ferreira respirou fundo. A barriga roncava de fome e os minutos passavam. “Não vai dar tempo”, pensou, desanimado. – Olha, esquece o omelete! Quero aqueles três ovos cor-de-rosa que estão em conserva ali na vitrine. – Infelizmente não vai ser possível. Eles já foram vendidos. – Eu pago o dobro, pode ser? Só preciso comer e voltar a trabalhar... – Não dá. Um cliente antigo da casa pediu para reservar. Mais tarde vem buscar. Ferreira ficou com o rosto rubro. Sentiu o sangue ferver. Levantou-se abruptamente e não percebeu que o piso do boteco estava molhado. Um tremendo escorregão o levou ao chão. Saiu de ambulância, desacordado. No hospital, exames e alguns pontos na cabeça. – A pancada foi muito forte. Vai ficar em observação até amanhã – decidiu o médico. Mais tarde, em seu leito hospitalar, Ferreira viu quando alguém entrou no quarto com o jantar: omelete com legumes. Lembrou-se do funcionário do boteco e saboreou a refeição sentindo o gostinho da vitória.