Em uma manhã ensolarada de domingo, Basilio resolveu passear pela feira de antiguidades. Com curiosidade, admirou quadros, relógios de parede e peças de porcelana. Apreciou a beleza de cada item. Enquanto percorria as barraquinhas, um objeto o atraiu com inexplicável magnetismo: um antigo telefone de disco. Preto, com pintura fosca, pesado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “É um raro exemplar da década de 1940”, disse calmamente o vendedor, um homem magro com idade bastante avançada. Basilio permaneceu por alguns minutos observando e examinando o obsoleto aparelho e pensou que seria um bonito objeto de decoração para a sala de seu apartamento. Perguntou o preço, que estava estranhamente baixo, e decidiu comprá-lo. Acomodou cuidadosamente o telefone em cima de uma pequena mesa de canto da sala de estar. A peça vintage tinha dado um toque especial ao ambiente. Mais do que isso: aquele objeto parecia ter uma energia própria. Sem que se desse conta, Basilio passou a divagar. “Quantos diálogos esse telefone testemunhou? Recebeu notícias boas ou ruins? Alguma confissão de amor?” A noite veio. Basilio assistiu televisão e foi se deitar. Adormeceu rapidamente. Já era madrugada quando, entorpecido e com os olhos pesados, ouviu em seu quarto o som mais ou menos distante e intermitente de algo que lembrava um despertador. Aquela campainha parecia vir da sala. A princípio, não entendeu a origem do som, mas sentiu seu corpo gelar quando lembrou do velho telefone preto que havia comprado na feira de antiguidades. “Não pode ser. Não há linha telefônica ligada!”, pensou, assustado. O aparelho continuava a tocar e Basilio não saía da cama. Os segundos pareciam uma eternidade. O medo o dominava. Se fosse até a sala e atendesse o telefone, o que escutaria? Vozes de pessoas que ficaram presas naquele antigo telefone? Mensagem do além? O toque insistente só aumentava o seu pavor. Em dado momento, sentiu que seria pior ficar ali na cama, paralisado pelo susto. Deveria enfrentar aquela insólita situação e saber o que estava acontecendo. “Fantasmas não usam telefone!” Levantou-se e caminhou lentamente até a sala. Cada passo era uma tortura. À medida que se aproximava, a campainha do telefone tornava-se mais estridente e desafiadora. Suas mãos tremiam. Arrependeu-se profundamente de ter levado aquele objeto antigo para seu apartamento. Fechou os olhos, prendeu a respiração, tirou o telefone do gancho e o levou até seu ouvido esquerdo. Uma voz soprosa, sem gênero, sussurrou do outro lado da linha: “A guerra acabou”. Basilio sentiu as pernas enfraquecerem e a cabeça rodar. Perdeu os sentidos. Acordou em sua cama, com o dia já claro. Não lembrava de como tinha voltado para o quarto. Estranho... A voz sobrenatural que ouviu no telefone continuava em sua mente. Nunca teve um sonho tão real! Ao ir até a sala, porém, viu que o velho telefone de disco estava fora do gancho. Rapidamente, guardou o aparelho em uma caixa qualquer. No domingo seguinte foi até a praça onde a feira de antiguidades era montada para devolvê-lo ao vendedor, mas não o encontrou mais. Perguntou para um, para outro, mas ninguém conhecia o idoso. Confuso, Basilio inventou uma história e doou o objeto a outro comerciante. Um vento súbito agitou a copa das árvores e chegou ao seu ouvido, sussurrando mais uma vez as palavras eternizadas no tempo. “A guerra acabou”.