Câmara aprova projeto que tributa apostas esportivas ( Peter Glaser/Unsplash ) Zedinelson acordou bem cedinho. Aquele dia seria decisivo para ele. Garoto magro e bom de bola, teria a última chance de realizar o sonho de ser jogador profissional de futebol: um teste, popularmente chamado de peneira, que o clube de sua cidade realizaria naquela manhã. O time disputava a terceira divisão do campeonato estadual. No meio do futebol, 17 anos de idade já é um pouco tarde para começar a carreira. Zedinelson sabia disso e encarava aquele teste como a derradeira chance de sua vida. Saltou da cama, banhou-se, tomou café e colocou na mochila o par de chuteiras que usava nos jogos da várzea. Confiante, pegou a bicicleta e pedalou até a sede do glorioso União Mundial Futebol Clube. Ali, quase uma centena de jovens alimentavam o mesmo sonho. Quantos passariam pela peneira e teriam a chance de treinar profissionalmente? Ninguém sabia. O treinador Pedrão, responsável pelas categorias de base do clube, apareceu no horário marcado. Acompanhado de um auxiliar, explicou como funcionaria: 22 garotos começariam jogando e ele iria fazer as substituições de acordo com o desempenho de cada um. Zedinelson estava nervoso. Como conseguiria se destacar no meio de tanta gente? Teria, ao menos, um tempo para entrar em campo e tocar na bola? Para a sua decepção, não foi escolhido para começar jogando. Os selecionados receberam coletes – equipe azul e equipe vermelha –, e foram para a ‘guerra’. Bola rolando. A garotada entrava para valer nas jogadas, em tentativas desesperadas de chamar a atenção do treinador. Mas, para a maioria, faltavam técnica e talento com a gorduchinha. Logo, alguns eram substituídos e saíam decepcionados. Inquieto, ao lado dos outros que esperavam para entrar, Zedinelson mexia as pernas, roía as unhas e olhava toda hora para o treinador Pedrão, apelando com os olhos para que ele o colocasse em campo. Intervalo para tomar água. A ansiedade do garoto só aumentava. Antes da partida ser reiniciada, veio o momento tão esperado. Pedrão chamou Zedinelson. Examinou rapidamente o rapaz e perguntou: “Joga em qual posição?” “Meia-esquerda, professor”. “Vai lá”. O garoto sabia exatamente o que fazer. Se corresse feito um louco atrás da bola, seria apenas mais um em campo e passaria despercebido. Teria, talvez, apenas uma ou duas chances de dominar a bola e alcançar um milagre. Procurou jogar de cabeça erguida, se esquivar da marcação e se posicionar perto da grande área. Em uma troca de passes entre os garotos de seu time, recebeu a bola bem redondinha, de costas para o gol. Tocou de primeira com o pé esquerdo e deu um ‘chapéu’ no inocente zagueiro. Sem deixar a pelota tocar o gramado, disparou o chute genial, o mais importante de sua vida. Com o peito do pé, pegou em cheio na bola, que caprichosamente fez uma leve curva no ar e estufou a rede, no ângulo, arrancando aplausos do treinador e de outros garotos. Um golaço! Aprovado na peneira, Zedinelson voltou para casa feliz. Entendeu que, na vida, há situações em que o importante não é correr. É saber dar o passo certo na hora certa.